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Domingueiros

Ontem fui às compras com a Sofia. Não gosto de ir às compras, mas como eram coisas para mim, lá fui eu até ao centro comercial. Resisti bastante bem às 3 horas em que estive exposto ao ambiente hostil de centro comercial, a que normalmente reajo com suores, irritação, quebras de tensão e, às vezes, revoluções intestinais.

Quando terminámos, decidimos ir dar um passeio e, uma vez que era domingo, resolvemos ir a um sítio novo, um pouco distante de casa.

Passada quase uma hora de caminho, estacionámos junto de um sítio muito agradável, com uns caminhos ladeados com árvores, de volta de um grande e bonito reservatório de água – disse a Sofia –, onde havia algumas pessoas a caminhar e passear cães.

Um grande repuxo ao lado do reservatório com campos verdejantes à volta e um detalhe de flores amarelas.

Sou um bocado reticente em explorações, uma vez que facilmente chego a zonas onde não consigo caminhar. Mas parecia-me tudo bem ali. Lá fomos.

O Lupi foi travando amizade com alguns outros amigos de quatro patas, feliz da vida dele.

Eu e a Sofia com um fundo de arbustos lilases e erva verde, onde o meu cabelo (pintado de verde) se confunde com a vegetação.

Passados uns 20 minutos de caminho, e depois de termos já passado algumas zonas em que não me tinha sentido confortável, perguntámos a uma senhora que parou junto de nós, por causa dos cães, onde é que aquele caminho nos ia levar. A senhora, simpaticamente, explicou que íamos ver uma ponte, e depois havia uma bifurcação, que para a esquerda dava-se o resto da volta ao reservatório, e para a direita era para continuar a dar uma volta maior, que abarcava outro reservatório. Perante aquela informação, decidimos seguir em frente, em vez de voltar para trás.

Fico sempre desconfortável com informações deste género, porque nunca sei se é demasiado longe para mim, ou não. Acrescia que o caminho podia ficar mau, como em algumas zonas por onde já tínhamos passado.

Lá seguimos. Achámos a ponte – era longe e tinha umas zonas lixadas! – e cortámos para a esquerda, pelo caminho mais curto.

Eu e a Sofia na ponte entre os dois reservatórios. Eu a fazer cara de tan-tan e a Sofia a rir comó caraças.

Dava para ver que já estávamos a mais de meio do caminho, portanto, voltar para trás aparentava ser estúpido.

Havia algumas pedras no caminho, seguidas de irregularidades, depois rampas, lama, raízes de árvores, portões, escadas, caminhos muito estreitos, silvas e vegetação vária. Eu já ia aos car… caragos e a Sofia a motivar-me com a cervejinha que ia beber a seguir.

A uns dois minutos de eu lhe pedir para me levar às cavalitas, a Sofia viu a saída/fim, já na zona onde estava o carro. A Sofia deu-me a motivação final, falando na cervejinha, e eu pensei que nem tinha sido assim tão mal, que o problema era a incerteza de saber se faltava muito ou pouco, e que da próxima ia ser muito mais confortável para mim. Não tive tempo de abrir a boca para lhe dizer isto – ela vai ficar a saber quando ler este texto.

Sofia – ahh! O parque de estacionamento tem o portão fechado a cadeado e já só está lá o nosso carro…

Eram 18h, eu tive o cuidado de ver.

Eu – liga para as emergências e pede para falar com a polícia.

Após alguns minutos de pesquisa na Net – o edifício onde o carro estava estacionado era da companhia das águas, pelo que havia a esperança de sacar um número onde alguém atendesse e fosse ali abrir o portão num tirinho, teoria que não se verificou – ligou para as emergências. Depois de terem passado a chamada algumas vezes e algum esforço a explicar onde estávamos, a polícia deu-lhe o número para casos não urgentes – pudera, não era o carro deles, nem eram eles que estavam mortos de cansaço , nem com sede, nem à chuva, nem sem sítio se quer para se sentarem!

Depois de termos conseguido falar para o departamento certo da polícia, e a Sofia ter lutado para que entendessem onde estávamos, foram extremamente simpáticos, recolheram os dados da Sofia, disseram que iam arranjar um contacto e voltariam a ligar. Lá ficámos nós à espera… Nem sei quanto tempo.

Fomos tentando escapar da chuva, graças a uma árvore que lá estava, e gerindo energia, que já estava na reserva mesmo antes de terminar o percurso à volta do reservatório.

A certa altura, um casal que tinha chegado entretanto e regressava ao carro chamou a nossa atenção. A Sofia “gritou” a perguntar se por acaso conheciam alguém que trabalhasse naquele edifício, a senhora aproximou-se, disse que não, explicou que era uma espécie de centro interpretativo sobre o meio ambiente e lamentou a nossa situação. Perguntei se nos podia indicar um sítio onde pudéssemos alugar um quarto para aquela noite, caso fosse necessário. Respondeu que não, mas que podia ver no Google. Lembrei os presentes que devíamos poupar as baterias dos nossos telemóveis e aceitámos a ajuda da simpática senhora, que com sintomas de constipação, precisou de ir ao carro buscar os óculos. Regressou com um senhor, e enquanto o senhor fazia festas ao Lupi e lhe dizia que ele era lindíssimo, ia-se assoando e arranjou-nos o número de telefone dum pub, ali mais pertinho, a 5 minutos de caminho, onde também alugavam quartos. O telefone da Sofia começou a tocar e a simpática senhora afastou-se, despedindo-se e desejando-nos boa sorte.

Era da polícia. Parece que estavam a tratar do caso, que iam arranjar um contacto. Estavam a tranquilizar-nos.

Nesta altura lembrámo-nos de ligar para a linha de incidentes urgentes da companhia das águas, só que em vez de reportar um cano roto, reportaríamos a situação do nosso carro, que estava trancado num edifício. E com que cadeado! Enorme, com rodinhas para pôr o código, a agarrar uma corrente grossíssima.

Eu e a Sofia à frente do portão trancado com o cadeado e a corrente e o carro ao fundo dentro to parque.

A senhora que atendeu, a Georgia, foi muito simpática, mas disse que não conseguia falar com ninguém dali, do edifício. Pediu os dados à Sofia e disse que ligaria daí a um bocado, depois de falar com a chefe. Avisou que alguém nos ia abrir o portão! VIVA!

A polícia voltou a ligar, dizendo que íamos ser contactados pelos bombeiros. A Sofia avisou que também tínhamos avisado a companhia das águas, e que a companhia das águas iria resolver o problema, e para a polícia o assunto ficou arrumado!

Pensámos então em ir para o tal pub sentarmo-nos até alguém telefonar. Estava a ficar bastante frio e eu estava já muito cansado. 5 minutos a pé não podia ser longe.

Lá fomos, passeio estreito e vegetação a invadi-lo vinda do quintal das casas. Por uma vez, só não fiquei cego porque já sou – e também estava com os óculos postos.

O sítio era meio ermo e eu não estava a gostar. A Sofia confirmou o caminho. Continuavam a faltar 5 minutos a pé… Disse-lhe que preferia voltar para trás, que não queria que ela fizesse o caminho de volta sozinha para ir buscar o carro.

Nisto a Sofia avistou uma carrinha da companhia das águas ali estacionada. Estava a tentar convencer a Sofia a ir bater às portas até descobrir quem andava com aquela carrinha, para pedir ajuda. Nisto ouvimos alguém a sair de um carro, e ao mesmo tempo que íamos abordar a pessoa, o telefone tocou!

Era da companhia das águas, a dizer que ia gente a caminho. Agradecemos muito e avisámos que estávamos a 5 minutos do carro, para a pessoa esperar e não se ir embora!

Quando chegámos ao portão, ainda não estava lá ninguém. Nisto recebemos uma SMS da companhia das águas a informar que a pessoa que nos ia abrir o portão demoraria 1 hora e 15 minutos a chegar…

Fomo-nos mexendo e tentando safar dos chuviscos, que tinham amainado. Eu só pensava na cervejinha, que seria melhor jantar e tudo.

Mudámos de sítio algumas vezes para passar o tempo e desentorpecer as pernas até que chegasse o funcionário da companhia das águas. Já estávamos de pé há muitas horas e, pelo menos para mim, estar parado de pé é muito custoso.

Passada a hora e 15 nada… pedi à Sofia para voltar a ligar, coisa que fez, sem, no entanto, obtermos nova informação. Quem atendeu explicou que toda a gente do escritório já sabia da situação e que alguém nos ia abrir o portão, mas que não sabia exatamente quando.

Comecei a entrar em stresse, bastante cansado mesmo. Liguei eu para a companhia das águas, falei com um senhor que, mais uma vez, me disse que toda a gente sabia da situação, que não sabia quando ia ser, que não me podia dar um número de telefone dos engenheiros que lá iriam, que deviam estar a fazer outro serviço, que não conseguia dar uma estimativa de tempo. Expliquei que era um tipo todo tortinho, estava muito cansado, sem sítio para me sentar e a ficar com muito frio. Lamentou e desligou educadamente.

Passada uma meia hora, acho eu, disse à Sofia para ligar para um amigo para nos ir buscar, e para saltar o muro – ela já tinha dito que o podia fazer – para ir buscar a chave de casa, que estava dentro do carro, que íamos telefonar para a companhia das águas, não fosse disparar algum alarme, e ainda seríamos acusados de invasão de propriedade privada. Estava-me mesmo a passar, quando a Sofia disse – Vem aí um carro…

Era mesmo um senhor da companhia das águas, bastante chateado por ter que sair de casa, de junto da família, a um domingo, dizendo que não devíamos ter estacionado ali – obrigadinho!

Demos-lhe toda a razão, oferecemos uma bebida que ele recusou. Que preferia voltar para a família, ainda nos descansou dizendo que pelo menos tinha sido pago para ir ali.

Arrastei-me até ao carro, muito cambaleante, e só não dei graças a Deus quando me sentei no carro porque não sou crente.

Já passava das 22 horas quando saímos dali.

P.S.

O pub não tinha estacionamento.

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O mundo vai acabar, mas…

Depois do cagaço que espetei a algumas pessoas no último texto – peço desculpa, não foi de propósito –, resolvi escrever uma coisa totalmente diferente, resolução que tive quando estava a ler o jornal – apesar dos senhores do jornal terem rebentado com a acessibilidade para cegos da aplicação para dispositivos móveis e por mais que eu lhes escreva não consertam aquilo. Era um artigo de opinião fascinante, de Arlindo Oliveira, o PRESIDENTE DO INSTITUTO SUPERIOR TÉCNICO, intitulado “Bits, estrelas e grãos de areia”.

Ocorreu-me que ninguém ia ler isto, mas, gaita! também escrevo porque me sabe bem!

O artigo é interessante e está “aberto”. Vou focar-me numa pequena parte, que nem é bem do autor, ou seja, é o autor a mencionar um outro. Tem tudo a ver com a distorção –torção? –da realidade que temos nas nossas cabeças, fruto da incapacidade que temos em fazer heurísticas mentais eficientes – estas palavras não são do autor, podem estar erradas –, animalidades dos humanos e da informação tóxica que nos metem pelos olhos e ouvidos a dentro.

Como sou acusado de ser chato, isto é um tema que me é muito caro. Acho que sou realista, detesto “fantasia”, adoro factos, e vejo o “copo meio cheio”. Faz de mim chato… é, mais-ou-menos curioso para mim. A verdade é que acabo por dar cabo de muitas “fantasias”, nas é sem querer! Ou melhor, até quero, mas acontece sem me dar conta.

Que grande volta… já nem sei o que é que estou para aqui a escrever.

Arlindo Oliveira menciona Hans Rosling, “um médico, académico e estatístico sueco, ficou conhecido no mundo inteiro por lutar contra a ignorância e os preconceitos, usando dados, estatísticas e gráficos, de uma forma eficaz e persistente.” Nesse mesmo artigo menciona um conjunto de 13 questões elaboradas por Hans Rosling, que sugeriu – o autor do artigo – que os leitores fossem procurar num motor de busca, de forma a testar o seu conhecimento. Parece que um chimpanzé, a responder ao calha, poderia ter melhores resultados. É claro que fui a correr ver se estava ao nível de um símio!

Leio imensas coisas, mas é tudo tão rápido, e sem conseguir parar com eficácia, que as leituras devem ter um efeito longínquo do melhor efeito possível – leio com recurso a software leitor de ecrã. Raramente volto a reler um parágrafo, uma frase, raramente páro para refletir, etc. Sempre a andar, que outra coisa não da jeito.

Achei o questionário numa página, questionário que está num livro que pretendo ler, assim o tempo me permita.

Vou transcrever, e deixar o link, onde também estão as perguntas, e as suas respostas. Eu falhei algumas e não consegui responder a uma, que era uma imagem que não consegui ver.

© Factfulness: How Well Do You Know the World?

“1. In all low-income countries across the world today, how many girls finish primary school?

A. 20 percent

B. 40 percent

C. 60 percent

2. Where does the majority of the world population live?

A. Low-income countries

B. Middle- income countries

C. High-income countries

3. In the last 20 years, the proportion of the world population living in extreme poverty has . . .

A. Almost doubled

B. Remained more or less the same

C. Almost halved

4. What is the life expectancy of the world today?

A. 50 years

B. 60 years

C. 70 years

5. There are 2 billion children in the world today, aged 0 to 15 years old. How many children will there be in the year 2100, according to the United Nations

A. 4 billion

B. 3 billion

C. 2 billion

6. The UN predicts that by 2100 the world population will have increased by another 4 billion people. What is the main reason?

A. There will be more children (age below 15)

B. There will be more adults (age 15 to 74)

C. There will be more very old people (age 75 and older)

7. How did the number of deaths per year from natural disasters change over the last hundred years?

A. More than doubled

B. Remained about the same

C. Decreased to less than half

8. There are roughly 7 billion people in the world today. Which map shows best where they live? (Each figure represents 1 billion people.)

“as imagens estão no link que está no final do questionário, onde também são ditas quais as respostas certas”

9. How many of the world’s 1-year-old children today have been vaccinated against some disease?

A. 20 percent

B. 50 percent

C. 80 percent

10. Worldwide, 30-year-old men have spent 10 years in school, on average. How many years have women of the same age spent in school?

A. 9 years

B. 6 years

C. 3 years

11. In 1996, tigers, giant pandas, and black rhinos were all listed as endangered. How many of these three species are more critically endangered today?

A. Two of them

B. One of them

C. None of them

12. How many people in the world have some access to electricity?

A. 20 percent

B. 50 percent

C. 80 percent

13. Global climate experts believe that, over the next 100 years, the average temperature will…

A. get warmer

B. remain the same

C. get colder ”

Here are the correct answers: https://www.quickanddirtytips.com/education/science/factfulness-how-well-do-you-know-the-world

Bom questionário!

Potássio

Estou a escrever depois de almoço, e à espera de resultados de um exame de sangue que fiz hoje, de urgência.

Ontem recebi um telefonema da minha médica em tom aflito, que devia ir repetir um exame de sangue, que estava um valor muito alto, que devia estar errado, que tinha que ir repetir com urgência, que tinha que ir ao hospital no dia seguinte (hoje) da parte da manhã, e mais não sei o quê, que o potássio estava muito alto. Sem entender grande coisa, perguntei se podia ser da parte da tarde, respondeu que não, que era “muito urgente”, que não deixasse para a tarde. Perguntei o que devia fazer então, respondeu que nada, mas que se tivesse dores no peito para ir às urgências…

Resolvi ir tentar perceber o que acontecia com o potássio alto. Parece que dá para morrer de ataque cardíaco, o que batia certo com a informação da médica. Achei super fixe que depois de andar toda a vida a esforçar-me para não ceder aos sintomas e consequências da minha agressiva Neurofibromatose tipo 2 podia morrer de uma coisa que não tem nada a ver… Golpe final à doença que me anda a tentar quebrar desde os meus 11 anos! O meu desprezo para com ela é tal que até morrer será por causa do potássio, e não da NF2. Tumba!

Hoje de manhã a Sofia foi comigo fazer o exame de sangue, onde a estrela foi, claro, o Lupi. Até nos abriram uma porta mais larga, mesmo à Lorde!

A enfermeira explicou-me que o resultado ia estar disponível na segunda-feira, mas depois de lhe explicar que poderia morrer no meio tempo, disse-me que a médica podia telefonar para lá, a saber o resultado, a partir das duas da tarde.

Entretanto, falei com um amigo, e dei-lhe um link para ele fazer o download da pasta onde tenho todo o meu doutoramento, que estou a tentar terminar, para ele safar, case eu patine. A ciência não pode sair prejudicada!

As coisas mais chatas que podem acontecer, da mais chata para a menos chata são:

1. Hemodiálise – tenho mais que fazer e ainda me pedem para deixar de comer queijo!

2. Ataque cardíaco e sobreviver – já estou debilitado que chegue.

3. Ataque cardíaco e morrer – ainda gostava de fazer mais umas coisas, e gosto muito da Sofia, dos meus amigos, onde incluo o Lupi, se bem que se for rápido, olha, ficava já feito!

Neste momento, vou parar de escrever este texto, e voltarei depois de saber os resultados do exame.

Pronto. A médica já me ligou.

Anticlímax total. Valores absolutamente normais, tinha sido mesmo erro.

Não foi desta.

O Lupi a lamber-me

Como os Putos

Sofro de insónias. Sim, sofro. É muito aborrecido mesmo! Há dias que se não fizer uma sestazinha à tarde tenho insónias em cadeia, ou seja, chega-se às 8 da noite e eu já com uma pedra de sono que não me aguento. Qual velhinha, antes das 10 da noite estou na caminha. O resultado é que antes das 3 da manhã estou desperto.

Por causa deste pseudodrama arranjei um portátil para trabalhar na sala/cozinha, uma vez que gostava de terminar o doutoramento. Foi na sala/cozinha que passei esta madrugada, a trabalhar na tese, ler e responder a e-mails e a ver as notícias do dia, bem fresquinhas. Por volta das 5 e 30 da manhã, já com meio dia de trabalho feito, decidi ir beber um café. Assim foi. Tirei o café, meti a chávena em cima do microondas, microondas esse que está no móvel que faz a separação virtual entre a sala e a cozinha, para não ter que andar com a chávena na mão, dei a volta, e antes de me sentar e esticar a mão para pegar na chávena que estava em cima do microondas, para a pousar a meu lado, na mesa onde estava a trabalhar – e estou agora a escrever isto –, a gula fez-me parar para apanhar um pedaço de chocolate, 100% cacau, que adoro, e estava em cima da mesa. Ao alcançar a embalagem da tablete de chocolate, reparei numa gosma na toalha da mesa, que é estrategicamente de plástico. Levei a mão à boca para ver do que se tratava.

Se fosse venenoso tinha patinado…

Era chocolate… o chocolate feito 100% de cacau! Estava derretido! Reparei que o chocolate estava muito perto do portátil, do respiradouro por onde ele bufa o ar quente para se arrefecer. O meu chocolate estava derretido na mesa!

Afastei tudo e limpei com um guardanapo de papel o que consegui. Fui, cuidadosamente, até à casa de banho, sem tocar em nada, e lavei e relavei muito bem as mãos.

Imagem de arquivo: Eu com uma tablete idêntica na mão.

Imagem de arquivo: Eu com uma tablete idêntica na mão.

Quando a Sofia acordou, limpou-me os dedos, a cara, a parede e o sofá. A parede limpou-se bem, o sofá não tenho tanta certeza se saiu tudo. O portátil tem um bocadinho no respiradouro e a Sofia acha que consegue limpar o resto. Falou em usar um garfo e papel…

O resto do chocolate está no recobro, dentro do frigorífico.

O Meu Epitáfio

Tenho dado por mim a pensar mais vezes que o desejável no meu epitáfio. Não que ache que vá morrer! Quer dizer, claro que vou, só não acho que isso esteja para breve.

Cada vez tenho mais certeza do que quero, e já o disse à Sofia muitas vezes.

Para além de uma parte de mim que é bastante agradecida à vida, às pessoas com quem me tenho cruzado, existe outra, muito negra, que deseja, inclusivamente, que algumas pessoas morram, devagarinho! No meio termo existe uma parte de mim, que viaja nesta vida no threshold da hipocrisia necessária ao funcionamento da sociedade. Essa é a parte mais tóxica para mim. Não sei bem como lidar com ela, até porque existem situações que incomodam consoante os oscilos do threshold, que varia influenciado por um conjunto de variáveis indefinidas. Por exemplo, sei que estar com fome e sono encolhe fortemente o threshold! Nessas alturas é bom estar em casa, sozinho, e, preferencialmente sem telefones e sem acesso à Internet – o risco de disparate é elevado.

“Pausa semiforçada para almoçar”

É interessante o que acabou de acontecer. Parei de escrever, no fim do último parágrafo, porque o computador estava irritantemente lento. Aproveitei para ir almoçar, e como se o Universo me quisesse dizer: Tens razão!, cá estou eu de volta à escrita, mais bem-humorado, apenas por ter almoçado – sim, o computador continua lento e acho que vou ter que reiniciar isto.

Como estava a ponto de escrever, existem situações que quase me tiram do sério, especialmente quando são feitas de forma reiterada. Não vou descrever nenhuma porque correria o risco de alguém achar que eu estou a escrever a pensar em si. Não estou! Não estou a pensar em nenhuma situação em particular nem a pensar a ninguém em particular.

Isto faz-me pensar que muitas coisas das que me chateiam a mim, devem chatear outros. Falo de situações perpetradas por mim! A pessoas que se sintam assim, ou assado, por causa de mim, a pessoas que achem isto, ou aquilo, de mim, eu peço: Falem! Digam-me! Perguntem-me! Mil motivos podem estar por de trás de alguma coisa, coisa essa que tenham mesmo a certeza absoluta e analítica que sabem. Talvez não saibam… Por omissão, sou boa pessoa. O contrário também pode acontecer, seja inadvertidamente, seja por algum motivo que, em princípio, não terei problema em esclarecer, caso essa oportunidade me seja dada.

A todas as pessoas que moram no threshold e com quem eu até já tentei falar, que continuam reiteradamente a ter comportamentos “tontos”, a quem me tenta volta-e-meia mentir, esperando que eu não “tope”, eu quero dizer que, em princípio, gosto de vocês, mas o meu epitáfio será para todos vós:

Não desculpo!

Sir Lupi

O meu amigo Lupi, que me lambe todos os dias, que vocaliza coisas ininteligíveis apesar de insistir em não ladrar – outro dia passou uma meia hora trancado na casa de banho, porque quando fechei a porta o gajo raspou-se lá para dentro sem eu dar conta e não ladrou! –, que me dá narigadas quando quer chamar a minha atenção, que esfrega o nariz molhado e geladinho em mim para me cheirar quando me estou a vestir depois do banho, que se vem esfregar, tipo gato, e quase me manda a baixo a mesa que comprei nos Emmaus, com os seus 35kg de delicadeza, que mesmo bêbado de sono, vai todo estremunhado receber a Sofia à porta quando ela vem de comprar o pão, que resmunga à noite quando insistimos em falar no quarto antes de ir dormir, que lança charme a tudo quanto é enfermeira, que me rapta as pantufas, mas que também me ajuda a manter de pé quando não há sítio onde me agarrar e preciso de ficar parado na rua, enquanto a Sofia precisa de se afastar ou mexer mais activamente, que me acendeu muitas vezes a luz quando eu ainda via. Que me avisou muitas vezes de que estavam a tocar à campainha quando eu estava a trabalhar de headphones postos e porta do quarto fechada, que me apanha coisas do chão quando eu as deixo cair e as perco, que me vai apanhar as cartas quando o carteiro as mete na abertura da porta e que me faz companhia todos os dias, que são passados em casa em frente ao computador, evitando que eu frite o miolo, é o melhor labrador preto brilhante, com umas barbichas brancas, que eu podia desejar. Tenho pena de não o ver rir, como acontece de vez em quando, como me conta a Sofia. Tenho pena de não lhe conseguir dizer o quanto ele me ajuda, embora ele abane a cauda inequivocamente de contentamento quando eu lhe agradeço. Gostava muito de lhe conseguir explicar que não me custa ir ao ror de consultas a que vou, porque sei que ele vai estar comigo, fora as vezes que temos que nos separar momentaneamente para eu fazer algum exame – outro dia, depois de uma Ressonância Magnética, a técnica que me veio devolver o Lupi disse-me que tinham planeado ficar com ele, e que estavam a pensar em arranjar um cão assim para “lá”. Adoro receber as cabeçadas que me dá quando estou ao computador, e as vezes, com um copo de cerveja na mão… Espero que ele perceba que é uma comédia vê-lo a disparar na direcção da porta para o quintal e travar arrelampado por perceber que está a chover. Espero que ele nunca perceba que eu tenho mais medo de o perder, do que ele tem de me perder a mim. Um cão cheio de capacidades. Outro dia acionou o HomePod com a cauda, e pôs a dar a White Riot dos Clash – é bom DJ! Passados uns minutos arremessou para fora da mesa de cabeceira a caixa dos anti-histamínicos que uso para dormir com a sua cauda dançante. Também deve ser quimicofóbico, não sei lá o que é que ele anda a ler…

Abraço-o com muito mais emoção de cada vez que vejo tristezas como a que vi ontem aqui:

https://www.sic.pt/Programas/julia/episodios/2019-05-28-Julia—28-de-maio—Parte-2—Familias-de-criancas-com-necessidades-especiais-burladas-por-treinador-de-caes?fbclid=IwAR0I1TnAPwg2VVNnChGc4Q0v0ItMq1DwbIvwp_EjWYkMSHyvnQqJIFFhJdE

Quero agradecer, do fundo do meu coração, à Sofia que insistiu para que eu me candidatasse a um cão de assistência, às queridas médicas que me falaram na possibilidade de ter um cão de assistência e, claro, à Ânimas!

O Lupi deitado debaixo de mim, no chão, e eu com as pantufas da ovelha xoné e o cabelo verde.

P.S.

Xico, é bem verdade que não posso usufruir totalmente do cão por já ser casado. Eu estou bem servido, mas olha que ia ser um sucesso!

https://www.animasportugal.org/

https://www.publico.pt/2017/05/22/p3/noticia/lupi-o-cao-labrador-que-vai-mudar-a-vida-de-joao-1828128

Hou!

Na sala de espera para recolha de pacientes para os levar para casa no Manchester Royal Infirmary, comigo desesperado por estar à espera há um ror de tempo, decidido a telefonar para o sítio onde estava mesmo sem rede celular mas acabadinho de me ligar ao wi-fi do hospital, aparelho auditivo arrumado e auscultadores do telemóvel nas orelhas para ouvir bem o voiceOver enquanto usava as duas mãos para mexer no iPhone para fazer uma chamada no Skype e tentar perceber que raio se estava a passar, se não se tinham esquecido de mim:

– … csa….

– … senhor… csa…

– olhos….

– …. Ambulância…

– …táxi…senhor…

-…gasg…esposa…

– …senhor….

-…senhor….

-…SENHOR….

– SENHOR!!

Eu – está a falar comigo?

Senhora – sim, estava a chamá-lo e o senhor não disse nada.

Eu – quando estava a dizer senhor?

Senhora – sim, estava a chamá-lo.

Eu- desculpe, eu não sabia que era comigo.

Senhora – mas eu chamei-o!

Eu – mas disse o meu nome?

Senhora – não, chamei-o!

Eu – mas… eu não vejo… se não disse o meu nome fica complicado.

Senhora – eu até gritei!

Eu – mas eu não sabia que era para mim…

Senhora – eu chamei-o.

Eu – mas se só disse “senhor” como era suposto eu saber que era comigo? Eu não vejo.

Senhora – chamei-o…

Atenção: não reajo a apitos, psius, heys e etc.