Author Archives: João de Sousa e Silva

O Meu Epitáfio

Tenho dado por mim a pensar mais vezes que o desejável no meu epitáfio. Não que ache que vá morrer! Quer dizer, claro que vou, só não acho que isso esteja para breve.

Cada vez tenho mais certeza do que quero, e já o disse à Sofia muitas vezes.

Para além de uma parte de mim que é bastante agradecida à vida, às pessoas com quem me tenho cruzado, existe outra, muito negra, que deseja, inclusivamente, que algumas pessoas morram, devagarinho! No meio termo existe uma parte de mim, que viaja nesta vida no threshold da hipocrisia necessária ao funcionamento da sociedade. Essa é a parte mais tóxica para mim. Não sei bem como lidar com ela, até porque existem situações que incomodam consoante os oscilos do threshold, que varia influenciado por um conjunto de variáveis indefinidas. Por exemplo, sei que estar com fome e sono encolhe fortemente o threshold! Nessas alturas é bom estar em casa, sozinho, e, preferencialmente sem telefones e sem acesso à Internet – o risco de disparate é elevado.

“Pausa semiforçada para almoçar”

É interessante o que acabou de acontecer. Parei de escrever, no fim do último parágrafo, porque o computador estava irritantemente lento. Aproveitei para ir almoçar, e como se o Universo me quisesse dizer: Tens razão!, cá estou eu de volta à escrita, mais bem-humorado, apenas por ter almoçado – sim, o computador continua lento e acho que vou ter que reiniciar isto.

Como estava a ponto de escrever, existem situações que quase me tiram do sério, especialmente quando são feitas de forma reiterada. Não vou descrever nenhuma porque correria o risco de alguém achar que eu estou a escrever a pensar em si. Não estou! Não estou a pensar em nenhuma situação em particular nem a pensar a ninguém em particular.

Isto faz-me pensar que muitas coisas das que me chateiam a mim, devem chatear outros. Falo de situações perpetradas por mim! A pessoas que se sintam assim, ou assado, por causa de mim, a pessoas que achem isto, ou aquilo, de mim, eu peço: Falem! Digam-me! Perguntem-me! Mil motivos podem estar por de trás de alguma coisa, coisa essa que tenham mesmo a certeza absoluta e analítica que sabem. Talvez não saibam… Por omissão, sou boa pessoa. O contrário também pode acontecer, seja inadvertidamente, seja por algum motivo que, em princípio, não terei problema em esclarecer, caso essa oportunidade me seja dada.

A todas as pessoas que moram no threshold e com quem eu até já tentei falar, que continuam reiteradamente a ter comportamentos “tontos”, a quem me tenta volta-e-meia mentir, esperando que eu não “tope”, eu quero dizer que, em princípio, gosto de vocês, mas o meu epitáfio será para todos vós:

Não desculpo!

Sir Lupi

O meu amigo Lupi, que me lambe todos os dias, que vocaliza coisas ininteligíveis apesar de insistir em não ladrar – outro dia passou uma meia hora trancado na casa de banho, porque quando fechei a porta o gajo raspou-se lá para dentro sem eu dar conta e não ladrou! –, que me dá narigadas quando quer chamar a minha atenção, que esfrega o nariz molhado e geladinho em mim para me cheirar quando me estou a vestir depois do banho, que se vem esfregar, tipo gato, e quase me manda a baixo a mesa que comprei nos Emmaus, com os seus 35kg de delicadeza, que mesmo bêbado de sono, vai todo estremunhado receber a Sofia à porta quando ela vem de comprar o pão, que resmunga à noite quando insistimos em falar no quarto antes de ir dormir, que lança charme a tudo quanto é enfermeira, que me rapta as pantufas, mas que também me ajuda a manter de pé quando não há sítio onde me agarrar e preciso de ficar parado na rua, enquanto a Sofia precisa de se afastar ou mexer mais activamente, que me acendeu muitas vezes a luz quando eu ainda via. Que me avisou muitas vezes de que estavam a tocar à campainha quando eu estava a trabalhar de headphones postos e porta do quarto fechada, que me apanha coisas do chão quando eu as deixo cair e as perco, que me vai apanhar as cartas quando o carteiro as mete na abertura da porta e que me faz companhia todos os dias, que são passados em casa em frente ao computador, evitando que eu frite o miolo, é o melhor labrador preto brilhante, com umas barbichas brancas, que eu podia desejar. Tenho pena de não o ver rir, como acontece de vez em quando, como me conta a Sofia. Tenho pena de não lhe conseguir dizer o quanto ele me ajuda, embora ele abane a cauda inequivocamente de contentamento quando eu lhe agradeço. Gostava muito de lhe conseguir explicar que não me custa ir ao ror de consultas a que vou, porque sei que ele vai estar comigo, fora as vezes que temos que nos separar momentaneamente para eu fazer algum exame – outro dia, depois de uma Ressonância Magnética, a técnica que me veio devolver o Lupi disse-me que tinham planeado ficar com ele, e que estavam a pensar em arranjar um cão assim para “lá”. Adoro receber as cabeçadas que me dá quando estou ao computador, e as vezes, com um copo de cerveja na mão… Espero que ele perceba que é uma comédia vê-lo a disparar na direcção da porta para o quintal e travar arrelampado por perceber que está a chover. Espero que ele nunca perceba que eu tenho mais medo de o perder, do que ele tem de me perder a mim. Um cão cheio de capacidades. Outro dia acionou o HomePod com a cauda, e pôs a dar a White Riot dos Clash – é bom DJ! Passados uns minutos arremessou para fora da mesa de cabeceira a caixa dos anti-histamínicos que uso para dormir com a sua cauda dançante. Também deve ser quimicofóbico, não sei lá o que é que ele anda a ler…

Abraço-o com muito mais emoção de cada vez que vejo tristezas como a que vi ontem aqui:

https://www.sic.pt/Programas/julia/episodios/2019-05-28-Julia—28-de-maio—Parte-2—Familias-de-criancas-com-necessidades-especiais-burladas-por-treinador-de-caes?fbclid=IwAR0I1TnAPwg2VVNnChGc4Q0v0ItMq1DwbIvwp_EjWYkMSHyvnQqJIFFhJdE

Quero agradecer, do fundo do meu coração, à Sofia que insistiu para que eu me candidatasse a um cão de assistência, às queridas médicas que me falaram na possibilidade de ter um cão de assistência e, claro, à Ânimas!

O Lupi deitado debaixo de mim, no chão, e eu com as pantufas da ovelha xoné e o cabelo verde.

P.S.

Xico, é bem verdade que não posso usufruir totalmente do cão por já ser casado. Eu estou bem servido, mas olha que ia ser um sucesso!

https://www.animasportugal.org/

https://www.publico.pt/2017/05/22/p3/noticia/lupi-o-cao-labrador-que-vai-mudar-a-vida-de-joao-1828128

Hou!

Na sala de espera para recolha de pacientes para os levar para casa no Manchester Royal Infirmary, comigo desesperado por estar à espera há um ror de tempo, decidido a telefonar para o sítio onde estava mesmo sem rede celular mas acabadinho de me ligar ao wi-fi do hospital, aparelho auditivo arrumado e auscultadores do telemóvel nas orelhas para ouvir bem o voiceOver enquanto usava as duas mãos para mexer no iPhone para fazer uma chamada no Skype e tentar perceber que raio se estava a passar, se não se tinham esquecido de mim:

– … csa….

– … senhor… csa…

– olhos….

– …. Ambulância…

– …táxi…senhor…

-…gasg…esposa…

– …senhor….

-…senhor….

-…SENHOR….

– SENHOR!!

Eu – está a falar comigo?

Senhora – sim, estava a chamá-lo e o senhor não disse nada.

Eu – quando estava a dizer senhor?

Senhora – sim, estava a chamá-lo.

Eu- desculpe, eu não sabia que era comigo.

Senhora – mas eu chamei-o!

Eu – mas disse o meu nome?

Senhora – não, chamei-o!

Eu – mas… eu não vejo… se não disse o meu nome fica complicado.

Senhora – eu até gritei!

Eu – mas eu não sabia que era para mim…

Senhora – eu chamei-o.

Eu – mas se só disse “senhor” como era suposto eu saber que era comigo? Eu não vejo.

Senhora – chamei-o…

Atenção: não reajo a apitos, psius, heys e etc.

Care Line

Hoje de manhã:

Som: ggggrarrgggarrrg…….grgaaaggggarrrrargggrrgggggr

Eu a pensar – Querem ver que o vizinho está a Morrer…

Som: garrragggarggargbbgr

Eu a pensar – Vou ligar para a Care Line.

Care Line: – olá. Quem fala? Algum problema?

Eu – Sou o João, do 17. Há bocado ouvi: ggggrarrgggarrrg…….grgaaaggggarrrrargggrrgggggr.

É melhor ligarem para o meu vizinho para ver se… se está vivo…

Care Line -… e ouviste o quê?

Eu – ggggrarrgggarrrg…….grgaaaggggarrrrargggrrgggggr

Care Line – Tossir?

Eu – não. Se lhe estivessem a apertar a garganta faria esse som… ou, talvez, se se estivesse a

engasgar com alguma coisa…

Care Line – Vou ligar, obrigado.

…o que raio terá pensado a senhora da primeira vez que tentei reproduzir o som do vizinho a

morrer?

Calvert Trust – chegada- dia 1 de 4

Eu a Sofia e o Lupi fomos passar o fim-de-semana à Calvert Trust do Lake District. Estava tudo quase espetacularmente programado. Íamos ter um fim-de-semana incrível, aproveitando a viagem todinha, desde sexta-feira.

Saímos cedo para conseguir ir almoçar num Pub incrível, o Wilson’s Arms, que fica bastante perto da Calvert Trust, em Keswick – o Wilsons Arms é em Torver. Chegámos, um pouco depois da hora prevista – também saímos um pouco depois da hora prevista –, e, de entre as maravilhosas coisas do menu – tipicamente feitas com produtos de época e locais, tanto quanto possível – eu escolhi uma sandes de uma salsicha local – impecável – e a Sofia um menu com várias pequenas coisas de peixe. Tive o cuidado de comer coisas sem lactose, uma vez que sou intolerante – leite, iogurtes líquidos, requeijão, natas = desastre; queijo, manteiga = OK. Para sobremesa, já bastante cheios, resolvemos pedir, uma das minhas sobremesas preferidas, um tiramisu, para ambos, que estava maravilhoso. Tudo regadinho com duas Guinesses, e a Sofia com “uma coisa qualquer de elderflower”, que se materializou numa água tónica de elderflower, que vazou para fora do copo ao servir, porque não sabia que ia fazer tanta espuma, e não gostou muito, por ser amargo – a Sofia não estava à espera que fosse água tónica. Para minha infelicidade, descobri que o tiramisu bem feito, também não me cai muito bem, sendo que tive tempo para pensar sobre o assunto durante os 20 minutos que passei na casa de banho. Antes de sairmos, mesmo combalido, concordei com a Sofia e com o cozinheiro, que teríamos que voltar, uma vez que por 20 minutos – provavelmente culpa do tiramisu-, o Chef tinha saído, mesmo depois de ter preparado as nossas refeições, disse o Chef aprendiz. O Chef foi um antigo cozinheiro do David Bowie, e eu queria um cartão de visita do Pub assinado pelo Chef.

Quando chegámos à Calvert Trust, comigo um pouco combalido, fomos recebidos pela nossa simpática monitora, a Jane, do País de Gales, que nos disse que teria que dar umas explicações iniciais. Combinámos daí a meia hora, no refeitório. Deixámos as malas no quarto e lá fomos nós ter com a Jane. Eu, combalido, tive muita dificuldade em entender o que ela – a Jane – estava a dizer. Ficou, sobretudo, a ideia de que naquele mesmo dia podíamos ir à piscina.

Ao jantar, conhecemos os nossos companheiros de fim-de-semana. O Dave que era assistente do Thomas, e a Rosemary que era assistente da Stacy. O Thomas pouco falava, o Dave tinha uma voz tonitruante, barítono, ou mesmo baixo. A Stacy falava muito, mas não dava para entender muito bem, por causa de uma dicção complicada e do sotaque escocês, e a Rosemary não se entendia nada por falar muito baixo e ter um sotaque escocês carregadíssimo. A Sofia entendia quase tudo, um primor!

Resolvi, combalidamente, comer uma salada com um bocadinho de azeite, e um belo guisado de batata doce. Acho que estava tudo muito bom, mas, de forma combalida, terminei o jantar na casa de banho do refeitório.

Expliquei à Sofia que não queria ir à piscina, mas que ela devia ir, que eu ficaria bem no quarto. A Jane chegou e expliquei-lhe o meu plano. Ela, simpaticamente, disse-me que tinha algo para me dizer que poderia fazer-me mudar de ideias. Não entendi nada do que ela disse, pelo que fiquei com a primeira ideia. A Sofia também não quis ir para a piscina, e fomos para o nosso quarto. Eu, combalidamente, deitei-me, tapei-me e fui dormir para tentar estar em melhores condições no dia seguinte.

Limpeza Alienígena

Amanhã vou para a Calvert Trust, com a Sofia e o Lupi, passar o fim-de-semana. É uma espécie de hotel – montado numa antiga quinta – os quartos são nas baias! -, completamente adaptado para pessoas com deficiência. Organizam atividades radicais – sim, para deficientes, cadeiras de rodas e tudo! -, e eu e a Sofia queremos lá ir – eu para me divertir e por ter medo que corram comigo daqui – aqui, Inglaterra – e a Sofia para se divertir e por curiosidade de fisioterapeuta interessada que é.

Estava a trabalhar no doutoramento, e a apanhar uma pilha de nervos, por ter descoberto um standard de acessibilidade de que não me lembrava – a minha ignorância no assunto que estudo dá-me muita vontade de continuar -, e, depois de o alívio que foi ter descoberto que o dito standard já tinha sido substituído por outro, mais recente, sobre o qual já escrevi, decidi que, uma vez que queria ir lavadinho para a Calvert Trust, ir relaxar para o chuveiro.

Lá estive eu, porreirinho da vida, debaixo do chuveiro, sentadinho no banco que o meu Wetroom tem, a falar sozinho, que é uma coisa que faço bastante quando, lá está, estou sozinho.

Quando saí do banho, a falar sozinho – falei imenso desta vez. Tive uma grande conversa com um amigo imaginário sobre o Brexit – o amigo imaginário era meio tonto e tive que lhe explicar muitas coisas -, cheguei ao quarto e, sim senhor, grande cão, não me tinha desaparecido com as pantufas.

Acabei a conversa que estava a ter, meti um podcast a dar, vesti-me, meti E45 na minha bela pele atópica, e vim para a sala/cozinha, onde agora estou quase sempre.

Abri a porta e, surpresa, um cão doido de contente na sala…. – Ai gaita! O meu Lupi tinha ficado na sala/cozinha enquanto eu tomava duche e conversava com o meu amigo imaginário. Não seria nada de especial, mas foi.

Quando fui para o banho, deixei o aspirador ligado – é um daqueles robôs que aspiram sozinhos, andando por todo o lado, usando uma catrefada de sensores para aspirar e baterem suavemente nas coisas, que faz imenso barulho, e tenho que fechar a porta para o robô não fugir.

A Sofia ainda não chegou. Espero que o Lupi não se tenha “descuidado” na alcatifa com o medo de um objecto estranho a fazer barulho aparentando estar a persegui-lo.

Ele é um cão com fleuma. Espero que tenha estado refugiado em cima do sofá.

Shaun the Sheep

Hoje, depois de tomar banho, a preparar-me para sair com a Sofia e o Lupi, para celebrar o dia de S. Patrício – olá professor Patrício Domingues, espero que esteja a ler! -, estava a calçar as pantufas – pantufas lindas, que a Sofia me ofereceu na sequência de uma operação à tola – não ia sair de pantufas. Era temporário -, e ao baixar-me para as apanhar, onde pensava que as tinha deixado, elas não estavam lá. Chamei o Lupi – cão competente e alegre -, e pedi-lhe as pantufas. Pedido prontamente atendido, e lá foi ele. Trouxe-me uma pantufa. Como faltava a outra – ele, o Lupi, é competente mas às vezes não consegue agarrar nas duas ao mesmo tempo, e não faz mal, porque senão baba tudo! –, pedi-lhe a outra, o que, mais uma vez, foi prontamente atendido.

 

Como ele chegou com a pantufa do outro lado – da primeira vez saiu para a direita, e voltou da direita, da segunda saiu para a esquerda, e voltou da esquerda – à esquerda estava a Caminha dele -, agradeci-lhe muito, disse que ele era lindo, e rindo e sorrindo, insultei-o porque tinha ficado claro que tinha sido o cão-ladrão a desaparecer com elas – elas, as pantufas.

 

A Sofia, riu-se, e fleumática: – percebeste que tinha sido ele? – sim…. Sacana…. – Eu estava a topar… Quando estavas a procurar as pantufas com as mãos, a tocar o chão, ele levantou-se logo e agarrou numa pantufa. – Safado! – Quando lhe pediste a outra ele voltou à cama dele para a apanhar, ele tinha lá as duas.

 

Cão ladrão! Não é a primeira vez que vejo cães a terem comportamentos deste calibre, que indiciam raciocínio complexo. O Lupi já teve algumas destas, que demonstram, mesmo. Um possível sentido de humor! Adoro-o!!

 

Este cão adora animais, são as minhas pantufas, é a Amélia – a minha girafa que uma querida amiga me ofereceu – a pobre da Amélia até ficou sem um emblema, o emblema da organização que recebia o dinheiro das vendas das girafas – o emblema deve ter sido comido! A girafa estava na Caminha, já sem o emblema –,  e, quando ele era pequenino – ele, o Lupi -, na quinta dos pais/educadores/treinadores/cuidadores, a Tereza e o Xico, o Lupi, todas as noites passava a pano – lambendo – a amiga dele, a Quimera – uma gata.

O Lupi e eu sentado na cama dele, com as pernas esticadas e as pantufas em forma de ovelha choné calçadas, a segurar na Amélia (girafa peluche).

Lá fomos celebrar o dia de S. Patrício, mas o Pub onde tentámos ir estava cheio, e ainda bem!

 

Acabámos por ir a um Pub incrível, o Wilton Arms, onde o dono nos surpreendeu: – falam português? – sim! O senhor também? – Sim! – A sério?! – A Sério e a brincar!

 

Era o M., antigo jogador de futebol em Portugal. Não vou escrever mais detalhes em respeito ao M. Apesar de não ter jogado ao mais alto nível, andou lá perto, e terminou por ter tido alguns infortúnios.

 

Vou jantar um Sunday roast que trouxemos de lá!