Tea room

As aulas de braille estão a ser uma andança  que varia entre o radical e a tortura para me manter acordado.

Depois de ter tido uma experiência de quase morte com os taxistas que me transportaram para a segunda aula de braille a que fui  – os meus vizinhos andam indignados com a maneira com que os taxistas me tratam e eu sem se quer saber que andava a ser observado -, A fim de aumentar as chances de sobreviver às jornadas das aulas de braille, decidi experimentar um serviço muito giro, onde vem um miniautocarro  equipado com rampas, elevadores , espaço e  mais não sei o quê que não vi, para levar pessoas em cadeira de rodas e  pessoas com outras deficiências para um sítio em particular, desde  nossas casas, ou desde onde nos aprouver  – haja vaga.

Um motorista muito educado e  bem treinado bateu-me à  porta à  hora marcada e  com grande mestria levou-me até ao miniautocarro. Depois de eu me ter tentado sentar  no lugar dele, o  motorista apercebeu-se, e bem, que não seria o melhor ser eu a levar o miniautocarro, pelo que me ajudou  a sentar noutro lado. Entretanto, descobri que uma passageira, que já se encontrava acomodada, estava muito alegremente a ser espancada pela cauda do Lupi, freneticamente abanada pela força da sua felicidade inesgotável – antes de descobrir o que se estava a passar, ocorreu-me que a passageira pudesse ter algum problema de cognição, dado que não estava a ver porque raio se estaria a rir descontroladamente.

Ao chegar ao local das aulas de braille, uma vez mais, o  motorista, com todo o  brio e  educação, levou-me até ao edifício e passou-me para outra pessoa, enquanto o Lupi andava ao meu lado, com a sua cauda furiosa de alegria, a segurar a sua própria trela com a boca e a fazer rir toda a gente.

Já na sala da aula de braille, onde estamos vários cegos sentados em volta de uma mesa, tirei discretamente o meu iPhone com  uns auriculares, previamente carregado de podcasts – eu já sabia como funcionava a aula. Depois de reparar que seria impossível ouvir o  que quer que fosse no iPhone, desisti, resignei-me e preparei-me para atingir o meu objetivo para essa aula – um papel com umas frases escritas que eu soubesse quais eram para treinar o tacto, simples, não é?

A aula de braille lá ia avançando, com todos os confortos inerentes a uma casa de chá. Os estudantes levam bolinhos, biscoitos e competem pela raridade dos quitutes que generosamente oferecem uns aos outros. O centro onde decorrem as aulas oferece chá e café, para desgosto de um senhor mais velho que afirmou preferir whisky.

Enquanto pensamentos autodestrutivos e homicidas me passavam pela cabeça, tentei explicar à professora que não era boa ideia dar-me palavras aleatórias e algumas que nem tinham significado, uma vez que o meu objectivo era treinar o tacto, e, portanto, seria vantajoso eu saber o que raio estava a tentar ler. Passada quase uma hora e meia, onde ouvi falar de achaques de saúde, em como uma senhora viu o seu telemóvel ser destruído pelas mãos e baba da sua neta com 18 meses, biscoitos italianos e outras coisas que o meu cérebro não reteve provavelmente por estar ocupado a tentar dissipar um iminente ataque de fúria, lá consegui duas frases que sei o que querem dizer, para trazer para casa.

Tive o prazer de rever uma antiga psicóloga que me aturou na altura em que tinha uma tangerina a amolegar-me a mioleirinha, que fazia com que eu não andasse muito simpático, e que me deu dois dedos de simpática prosa até um outro simpático, educadíssimo e muito competente motorista me ir buscar para me trazer para casa.

Foi uma experiência quase extra sensorial vir num miniautocarro carregadinho de pessoas com deficiências. O meu coração encheu-se e os olhos marejaram com a ternura com que o motorista tratou os passageiros e vice-versa – nitidamente já se conheciam. O motorista deixou-me em casa, depois de eu lhe ter dito que não lhe tirava o chapéu só porque não o trazia comigo. Mesmo perante a minha insistência de que já estava bem, só se afastou de mim depois de me ter visto a abrir a porta!

O Lupi e eu a segurar numa folha com o alfabeto em Braille.

Se tudo correr bem, não volto às aulas de braille. Pela saúde restante dos outros alunos, da minha sanidade mental e, eventualmente, a manutenção do cadastro limpo.

2 thoughts on “Tea room

  1. Magda Carvalho

    Olá João.
    Penso que consigo imaginar a tua frustração e estado de espírito… perdido?
    Iniciar uma aprendizagem, seja do que for, quando somos adultos e queremos ver resultados rápidos pode tornar-se frustrante, ainda mais, se ao nosso lado, a vontade se crescer no conhecimento não está na nossa onda.
    Pela tua descrição, da qual me arrancaste uns sorrisos, percebi que há pessoas de diferentes idades e muitas com vontade de falar… Já trabalhar…
    Que mais te posso dizer… acredito que a leitura em Braille te ajude em algumas situações, acredito que a tua preserverança, ainda que testada com a tua paciência ou falta dela, te levará a bom porto. Por outro lado, que raio, tu já deste provas que és um gajo mais do que desenrascado. Não me digas que são uns pontinhos gravados em folhas que te vão derrubar?

    Beijinhos e continuação de boa escrita.

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  2. Rosalina

    Pois é Sr Doutor João,
    Pelo o que me é dado saber através da tua comunicação, cada dia que tenhas de sair, apenas acompanhado pelo Lupi, é uma aventura. Como todas as aventuras têm coisas fantásticas e outras muito longe disso, a verdade é que sem quereres, consegues pôr as pessoas bem dispostas – ou quiçá, preocupadas – ao ocupares o lugar do motorista do autocarro… nem o Lupi podia faltar com a sua reação natural de boa disposição a fazer rir a malta toda! Não podes por isso, e por muito mais, deixar de ir às aulas de braille ou seja do que for, porque fazes uma falta enorme a quem te rodeia e onde quer que vás! Não desanimes! É mesmo o que a Magda diz: “queremos aprender depressa”… Se calhar não podes dar lá um berro e dizer lá ao resto dos colegas de turma que se calem com os seus desabafos domésticos, mas valoriza o que por via das aulas, consegues obter de positivo, e que acabam por te proporcionar alegria também.

    Força sempre! Beijinho

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