Offended Brexit Spirit

Arrependi-me de ter recusado um aparelho auditivo, e antes que o Brexit me impedisse de mudar de ideias, antecipei essa hipótese, e fui ao Manchester Royal Infirmary configurar os superpoderes que essas maravilhas da tecnologia me providenciam.

O taxista bateu à porta, já um pouco tarde, simpaticamente segurou na trela do Lupi, e enquanto falava e brincava com o cão – normal, ele é lindo e simpático – o Lupi e não o taxista – eu fechava e trancava a porta. Continuou a segurar na trela enquanto com muito boa vontade e pouco jeito foi evitando acidentes até me meter dentro do carro – o Lupi e eu na parte de trás e o taxista, claro, à frente, a guiar. Quando lhe disse, em jeito de confirmação” Manchester Royal Infirmary, Peter Mount Building, certo?”, e ele hesitou em responder, eu estranhei. Insisti, e ele respondeu que “sim, Manchester Royal Infirmary e deixo-te na recepção” – em Inglês. …suspeitei que seria má ideia utilizar a viagem para meditar, conforme tinha planeado. Como a viagem demora um bom bocado, decidi arriscar, e tentar meditar – foi complicado. Passado um bocado, voltei a insistir: “então, Peter Mount Building, zona da audiologia, certo?, a que ele respondeu: – Eu não faço ideia onde é esse edifício. E continuou, dizendo “depois lá, é para a zona dos cegos, ok”. Calmamente, mas ansiosíssimo por estarmos atrasados e o senhor querer deixar-me sabe-se lá onde, enquanto montava hipóteses na cabeça para me safar da situação, respondi que “não, audiologia, no Peter Mount Building”, e acrescentei que podia “ apontar o meu GPS para lá” – o Google Maps -, ao mesmo tempo que desejava, com muita força, que o edifício estivesse discriminado no Google Maps. O taxista não respondeu. Enquanto procurava o edifício no Google Maps, que não estava a funcionar, pensei que era estranho o taxista estar a ser “uma besta… foi tão simpático para o Lupi e para mim…. Quando finalmente encontrei o edifício no GPS, disse-lhe que “achei e posso pôr isto a funcionar”, e acrescentei que pedia “desculpa uma vez que não sou nativo da língua, e portanto, existem problemas de expressão e compreensão, está bem?”, ao que o senhor respondeu que não havia problema, para eu “pôr o GPS a funcionar mais perto do destino”, e acrescentou: – é que eu sou um bocado surdo… – O quê?!!!!. – Sou um bocado surdo, ouço mal. E acrescentou a gracejar: – tu és cego e eu sou surdo. Percebi que estava ali uma casa, digo, táxi, bem montado, desisti da meditação e entrei no meu modo de “Desenrascanço Turbo”.

Peguei no meu telemóvel e escrevi um telegráfico e-mail à competente audiologista a dizer que ia chegar um bocado atrasado e estava a caminho. De cada vez que queria falar para o senhor taxista, em vez de falar, passei a berrar: – JÁ POSSO LIGAR O GPS? – daqui a bocado. E eu pensava, “ai que estou tão tramado…”. Até que o simpático mas duro de ouvidos senhor me disse que podia “agora ligar o GPS”. Liguei e, como muito bem lembrou o senhor, mantive o telemóvel comigo uma vez que ele estava a conduzir. E lá fui eu, a repetir as instruções do Google Maps aos berros: – AT THE ROUNDABOUT, TAKE THE SECOND EXIT TO THE BOULEVARD; IN 200 YARDS, TURN LEFT. O senhor deve ter-se fartado, uma vez que me pediu o telemóvel, e o pousou no banco do lado, para o ir vendo e, eventualmente, deixar de me ouvir.

Depois de me ter arrependido de não ter ligado a partilha de dados do telemóvel que agora estava no banco da frente, fora do meu alcance a ser utilizado pelo simpático senhor, o que fazia com que não pudesse usar a Internet no meu telemóvel com cartão português, que levava no bolso, não tive muito tempo para me reprovar. Chegámos!

Depois de o taxista me ter espetado contra um carro estacionado – o senhor tinha boa-vontade, falta de jeito, e estava nervoso. Pobre taxista -, incidente sem consequências, até porque nem dei tempo para isso –, seguimos em frente como se nada fosse -, entrámos, finalmente, no Peter Mount Building.

As pessoas que lá trabalham, muito simpáticas e educadas, foram dizendo olá “– Hello young man!” e abrindo alas a um cego desequilibrado, com um cão lindo e simpático, agarrado a um taxista duro de ouvidos.

Após a simpática e competente audiologista me sentar, para configurar o novo aparelho auditivo, audiologista essa que é de um profissionalismo incrível, delicadeza e cuidados impecáveis – deu-me uma informação sobre a cadeira onde me estava a sentar, que não tinha dado da última vez que eu lá tinha estado, e eu lhe tinha explicado que era relevante para mim saber -, disse-me que ia “tudo correr bem”, que o computador tinha estado a “trabalhar bem a manhã toda”. Mas não! Após várias tentativas de inicializar o procedimento para calibrar o aparelho auditivo, que incluíram, claro, reiniciar o computador, a Sarah – Sarah é o nome da audiologista -, explicou-me que, possivelmente o meu perfil estava corrompido, uma vez que já tinha acontecido o mesmo comigo no passado, e antes de eu chegar, o computador tinha estado a funcionar corretamente toda a manhã. Fiquei chocadíssimo! Tanto cuidado com a dignidade e os valores morais, chega-se ao audiologista e pimba, corrompido! Tive que me rir, e dizer que era o “espírito do Brexit” a conspirar: “não levas nada daqui! és imigrante!”.

Depois de mudar de computador, e consequentemente de sala, tudo correu bem – Não era o perfil corrompido – ufa, dignidade de volta!

Durante o procedimento, a audiologista pediu para chamar o transporte para me levar a casa, uma vez que o serviço, tipicamente, é demorado – como em Portugal, tenho direito a transporte para as consultas. Ao preparar-me para sair, pensei, e até comentei com a audiologista, que agora não haveria problema em ser um condutor duro de ouvidos, uma vez que lhe podia emprestar um aparelho auditivo.

Os astros alinharam-se, e quando estava a sair da consulta, o táxi estava a chegar! A Sarah deixou-me com o taxista, que não era duro de ouvidos, era muitíssimo simpático e bem-disposto, e, tal como o taxista da ida, com uma incrível falta de jeito, mandou-me com os c… com a zona pélvica, contra a porta do carro que o próprio tinha acabado de abrir.

Perguntou-me de onde é que eu era, por ter detectado um sotaque em mim, um grande exemplo da comentada Politeness – se fosse eu teria sido algo no género: Credo! fala tão mal… de onde é que é? -, fomos a conversar boa parte do caminho, e lembrei-me que estava a ser um dia cheio, e que provavelmente ia escrever sobre o que se tinha passado. Até me passou pela cabeça que a entrada no táxi poderia ser um bom fim para a história.

Ao chegar, o simpático taxista pediu-me 32£…

Eu a segurar no recibo que o taxista me passou.

6 telefonemas depois descobriu-se que, em princípio, alguém pediu mesmo um táxi, em vez de dar como terminada a minha consulta no serviço de transportes, para desencadear o transporte para casa. E agora vão ver como me podem reembolsar o dinheiro que, por ser uma pessoa preventiva – e ter sorte! – tinha comigo…

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