Monthly Archives: Dezembro 2018

Mary Poppins

Em poucos dias passei de uma investigação para um doutoramento para um livro infantil. Estou a tentar não ficar doidinho – aflição que sinto desde a última operação, que evitou que ficasse mesmo– reparei nisso depois de acordar da cirurgia – foi muito assustador perceber que se podia passar aquilo sem eu me dar conta – mais assustador à luz do “O erro de Descartes” de António Damásio, que faz com que o que me estava a acontecer faça assustadoramente sentido – e agora dou por mim a escrever de uma forma ainda mais estranha – sequelas? – é a vida…

Depois da operação, a toque de esteroides e de uma consciência renovada, juntamente com um desmesurado sentido de urgência – obrigado à equipa de neurocirurgia do professor King – acelerei, perigosamente, na investigação para o meu doutoramento. Ia-me estampando! Numa semana fiz mais que nos oito meses anteriores, e continuei a abrir por aí a fora, praticamente sem conseguir dormir, mesmo com soporíferos – já não estou a tomar nada dessas coisas.

Há poucos dias decidi abrandar e, eventualmente, parar. Foi sábio! Deixei de inventar desculpas para não trabalhar e permiti à cabeça descansar. Voltei a ler livros – alguns de qualidade duvidosa adoro ler livros fáceis de ler, é do melhor para relaxar sem encolher o cérebro – e, sem querer, acabei por resolver muitas coisinhas que estavam a estorvar ao miolo sem eu me dar conta.

Noto que estou a melhorar quando a ceia de Natal, especialmente escolhida para demorar apenas 30 minutos no forno, a final demora 2h15 e não fico com vontade de arrancar olhos.

Obrigado à colega de trabalho da Sofia, a Anne, que nos mandou presentes, incluindo para o Lupi.

O Lupi com uma coleira que parece um avental, alusivo ao Natal, que diz: Team SantaEu a dar ao Lupi um stick para lavar os dentes de cão, segurando uma ponta com a minha boca, e o  cão a segurar na outra ponta com a boca dele.

Obrigado à Sofia que me ofereceu um chapéu lindo, que me vou esforçar para usar durante muitos anos.

Eu a usar o belo chapéu que a Sofia me ofereceu.

Obrigado ao presidente da NF Patients United por me ter falado da esperança que é o BRIGATINIB para as pessoas com NF2.

Obrigado a todos os que me têm ajudado, seja de que forma for!

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Não Doutorar até Fritar

Após um ano e quase dois meses de emigração o balanço é estranho. Em geral, há uma sorte

tremenda que acompanha o infortúnio. Este ano fui operado à mioleira duas vezes – ainda bem que

já cá estava.

Mas eu estou aflitinho para escrever é sobre a queda espetacular que dei, há duas semanas, cá em

casa – foi uma pena só ter sido presenciada pelo Lupi. Estava ao telefone com a Sofia, quando ela

vinha do trabalho, até chegar cá a casa – normal. Cavalheiro como sou – voltei a ser depois da última

operação que me ia levando a capacidade mental e a personalidade, sem eu me dar conta – medo -,

e decidi ir abrir a porta à Sofia. A porta da casa de banho, abre para fora, e o fora da casa de banho é

o microcorredor/microhall de entrada. Ora, o Sir. Lupi tinha lá estado a comer – deixo a porta da

casa de banho aberta para que o Lorde possa sair quando terminar. Esqueci-me que não a tinha

fechado depois do cão sair. Lá ia eu, ceguinho, abrir a porta de entrada à Sofia. Bati na porta da casa

de banho, assustei-me e não sei bem como foi, não me lembro! Acho que me tentei apoiar na porta

da casa de banho, coisa que fazia muito, só que ela estava aberta, ou seja, devo ter-me tentado

segurar na porta que não estava lá – procedimentos automáticos -, como não resultou, devo ter

tentado segurar-me ao outro lado, coisa que também não funciona, uma vez que é um armário com

porta deslizante, sem tranca. Resultado, sentado no chão, virado no sentido contrário para onde ia,

encostado à porta de entrada, porta da casa de banho arrancada das dobradiças, a apoiada no chão,

tombada para o outro lado do microcorredor/microhall de entrada, como se fosse a hipotenusa de

um triângulo, onde os catetos eram o chão – onde eu estava – e, o outro, o armário com porta

deslizante. Eu fiquei sentado dentro da casinha que era o triângulo. O que me vale é ser rafeiro.

Quando me levantei e abri a porta à Sofia – que estava a achar que eu estava a demorar um bocado

– ela ficou um bocadinho aflita, até se convencer que eu estava mesmo bem. Acartou a porta

arrancada para de trás do sofá – onde está desde então –, e ao acalmar, reparámos que o Lupi não

estava ao pé de nós. No meio da entrada atribulada da Sofia, o desgraçado tinha passado para a rua,

sem que tivéssemos reparado, fechámos a porta, e lá ficou ele. Deve ter ficado nervoso o pobre

animal.

Estava atrás da porta quando a abrimos.

Graças ao cavalheirismo de um cego com um cão de assistência, vamos entrar em despesas. Estamos

à espera do orçamento para uma porta nova.

Microcorredor/hall de entrada, comigo sentado no chão e o Lupi deitado à minha frente.

P.S.

Ao senhor que estacionou o carro no lugar de deficientes, mesmo à frente do nós – eu, a Sofia e o

Lupi – lugar esse que queríamos usar, uma vez que até estávamos atrasados, no Trafford Centre,

senhor este que era grande, musculado e de cabeça rapada: um abraço fraterno dos amigos

imigrantes.