Salford Royal NHS Foundation Trust

E pronto, não eram só umas dores de cabeça de final de dia, nem vomitansos esporádicos. Eram mesmo tumores crescidos a causar pressão intracraniana.

Fiquei com a nítida sensação que ter perdido o resíduo visual que me restava foi o que desencadeou o internamento, para me fazerem uma ressonância magnética – que de outra forma teria levado semanas, ou meses -, portanto, fico contente em dizer que foi bom ter ficado cego quase total.

Parece que fui parar a um dos melhores centros de neurocirurgia do mundo. – não pode ser só azar! – e, como comecei logo a tomar esteroides, os sintomas desapareceram – i.e. dor de cabeça, vomitar. A acompanhar o desaparecimento de sintomas, chegou um apetite de leão. Até a comida inglesa hospitalar me sabia extraordinariamente bem. Desde umas sopas espessas – que sabiam a guisado -, passando por tartes de borrego, com vegetais ultra cozidos, terminando com bolachas de água-e-sal com queijo, tudo era apetitoso! Eu só me fazia lembrar do meu cão, que come tudo o que lhe põem a frente.

Dada a complexidade da intervenção, pude vir a casa no meio tempo – enquanto a equipa tentava arranjar as condições necessárias para me operar. Deu para ir a Portugal, a contragosto dos neurocirurgiões e tudo. Resolvi uma série de coisas por lá, e até cortei o cabelo – penteado prontamente estrampalhado pela equipa de cirurgia durante a operação.

Penteado estrampalhado e cicatriz impecável.

Umas 4 vezes por dia iam medir-me a pressão arterial, ritmo cardíaco, saturação de oxigénio do sangue, temperatura, apontar luzes aos olhos, dar-me esteroides, perguntar-me se queria tretas para as dores e picar o dedo para ver o nível de açúcar. Só não me davam era o comprimido para dormir – por ventura, para mim, o mais importante.

Num triste episódio, deram-me um laxante, que por causa da minha proficiência em inglês, combinada com o sotaque da pessoa que me deu a medicação, não fui capaz de recusar. Resultado: no dia seguinte, a caminho de outra consulta, noutro hospital, caguei-me todo no táxi, que, felizmente, se safou limpinho. Já no hospital de destino, saí do táxi para uma cadeira de rodas – bastante afanada -, e, com a Sofia a gritar impropérios, lá consegui ir acabar a cagada a uma casa de banho – não sem antes ter arruinado uns boxers e ter sujado umas ceroulas e um par de calças – paulatinamente, estou a ficar sem os boxers comprados em Milão, por ocasião de perda de malas, que a TAP nunca pagou, alegando que faltavam faturas originais que, sim, adivinhe-se, foram todas enviadas.

Calças novinhas, compradas no hospital, de senhora – que não havia outras, e lá fui para a consulta. Estou no processo para ser registado como cego no Reino Unido, o que poderá vir a ser bastante vantajoso – 50% de desconto da TV Licence, que é um horror de dinheiro, pior que o que mamam aos portugueses junto com a conta da EDP, por exemplo.

Já quase em casa, caí! No corredor de acesso ao meu apartamento, tive habilidade para cair, sem me magoar, mas com arte para bater numa porta de um apartamento. Veio uma pessoa, a quem pedi desculpa, levantei-me – a custo -, e segui caminho.

Corredor do 3º andar do prédio onde moro, onde fica o meu estúdio, porta 63

Agora, cá estou, entre tentar trabalhar, recuperar e resolver diversos assuntos relacionados com saúde, vida diária, bolsa de estudo e projeto de investigação.

Vamos ver onde é que isto vai dar. Dia 1 vamos, finalmente, ter carro! Tenho esperança que facilite a mobilidade e o orçamento. Vai ser bom, pelo menos, para mudar de casa – esta é muito pequena e nem dá para receber pessoas, a não ser que o cão saísse, por exemplo, para a lavandaria do prédio.

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2 thoughts on “Salford Royal NHS Foundation Trust

  1. David Teles

    Pelo menos os “bifes” não te conseguiram extirpar o sentido de humor e o talento para a escrita. Deves ter encontrado admiradores dos Monty Python e safaste-te.Tudo de bom para vocês. Abraço grande para ti , beijo para a Sofia e uma festinha para o cão, que ainda não conheço pessoalmente.
    David Teles

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  2. Rosalina Marques

    Para acontecer o que te aconteceu no táxi, não é preciso tanto! A qualquer mortal isso pode acontecer! E é melhor não começar a desatar a Língua! O que importa é viver e dar sentido a cada momento que a vida nos vai permitindo passar! Força sempre!

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