Jet Black @ Summer School

À chegada ao hotel, pedimos uma taça para dar água ao cão. Responderam que sim, que iam entregar ao quarto. Quando entrámos não demos com quarto nenhum! Era uma suite com uma sala enorme, um quarto espaçoso e uma casa de banho com dois lavatórios, cabine de duche e banheira com hidromassagem. Porreiro… Já o cão estava instalado no sofá – mediante autorização minha – bateram à porta e entregaram duas taças, para água e para ração, e uma caminha! Sim, uma caminha de cão. Fantástico! Voltámos a ter o sofá só para nós.

À medida que íamos travando conhecimento com outros participantes da escola, que rapidamente decoravam o nome do Lorde, mais tarde o da Sofia e, por fim, o meu, ficou claro quem era a estrela ali.

Durante as sessões, o Lupi arrumava-se a dormir, debaixo da mesa, que era redonda e tinha uma toalha comprida, até ao chão, o que fazia com que ele tivesse uma espécie de tenda. Volta e meia, algum colega do lado referia que o cão andava a cheirar-lhe os pés – este cão tem a parte do cérebro relativa a curiosidade diretamente ligada ao nariz -, lá me dava uma lambidela, ou à Sofia, e foi tudo. Passou a maior parte do tempo a dormir no seu abrigo – houve alturas que tive vontade de ir ter com ele.

A escola de verão sobre doenças raras foi mesmo interessante e, sobretudo, importante, mas, o cão marcou-a!

No terceiro dia da escola, de manhã, quando me preparava para sair, acabado de calçar, e pronto para pôr o arnês ao Lupi, ouvi um resfolegar, cada vez mais perto, sinto umas patas a apoiarem-se no sofá, onde eu estava sentado, e o resfolegar cada vez mais próximo, até quase me tocar na cara. Era o Lupi com a fita de pôr ao pescoço, que tem o cartão de identificação, na boca, felicíssimo a entregar-ma! O safado só me tinha visto a pegar nela uma vez, no dia anterior! Foi buscá-la à mesa de centro da nossa suite e veio entregar-ma. Ficámos atónitos. Pensámos que tinha sido um ato isolado. Qual quê! Fez o mesmo o resto dos dias.

Houve uma quantidade imensa de pessoas que pediram para tirar fotografias ao Sir Lupi. Mas, o mais incrível foram as pessoas que tinham medo de cães e quiseram, e conseguiram, vir ter com ele e fazer-lhe festas. No final, uma simpática médica albanesa, que tinha pavor de cães, veio-nos dizer que já tinha decidido, e até já tinha falado com o marido. Ia dar um cão aos filhos, um labrador! Tivemos que lhe explicar que este cão era muito bem-educado e treinado pelo Xico e pela Teresa, que, frequentemente, os labradores são passados e que era fundamental terem educação. Ficámos com pena dos filhos da senhora, mas evitámos uma desilusão e, eventualmente, um cão de ser mal tratado.

Foi fantástico ter visto uma pessoa, já de meia-idade, mas muito ativa e com ataxia, a evoluir durante a semana. Primeiro era um cão lindíssimo, depois passou a ser também interessante por ser de serviço, depois deslumbrou-se por saber que existem cães para dar assistência ao equilíbrio, entretanto descobriu que também se podia brincar com cães de assistência, e no final, já tinha avisado o marido que iam ter um! Só se queixou de uma coisa: fartou-se de mandar fotografias dela aos filhos, que não estavam presentes – tal como o marido -, de paisagens bonitas, e de ela ao sol, e só lhe responderam quando lhes mandou uma fotografia do Lupi. Aparentemente, se não fosse o cão, não tinha tido notícias dos filhos durante aqueles dias todos.

Ele foi, simplesmente, fantástico. Na suite, onde não tinha facilidade em deslocar-me, ele andava sempre junto a mim, e dava-me apoio, sempre que precisava de passar numa área onde não tinha onde me segurar. Mesmo assim, tive habilidade para desgraçar uma canela, quando tentei chegar para o lado, de uma forma pouco gentil, um movelzito, daqueles onde se pousam malas, onde tinha tropeçado na parte lateral, que me fez perder o equilíbrio, com o pé, pé esse que tentei usar para afastar o móvel. Infelizmente a zona do móvel onde tentei usar o pé não existia, e a minha canela encontrou o tampo onde se pousam as malas. Deixou de se notar há poucos dias.

No final, os organizadores da escola de verão, portanto, a equipa da Eurordis, veio ter connosco a dizer que o cão tinha sido incrível, que nem se tinha notado e que tinha sido o primeiro cão da escola de verão, portanto, de todas as edições até à data.

No regresso a casa, no A320R Florbela Espanca da TAP, que estava com os lugares todos reservados, por momentos, vimos a vida a complicar-se. Como ia ser com o Lupi? Por sorte, duas pessoas perderam o voo, e quando o simpático passageiro, que tinha o cartão de embarque com o lugar ocupado pelo Lupi, se estava a voluntariar para ir procurar outro lugar, uma assistente de bordo, prontamente apareceu, dizendo-lhe quais os lugares livres, e dizendo-lhe que ele podia escolher o que quisesse – as equipas da TAP são fabulosas! O senhor tinha dois lugares, um bastante atrás, e outro à frente, que ele escolheu, e que eu quis, com muita força, que já fosse numa classe superior – afinal o senhor tinha sido mesmo simpático. Durante praticamente todo o voo, veio o som de choro de bebé da zona para onde o simpático passageiro se tinha encaminhado.

Uns dias depois, recebemos um enorme envelope da EURORDIS.

Eu a segurar um certificado de presença na escola de verão da EURORDIS, onde no nome se lê Lupi de Sousa e Silva, com um boneco de um cão impresso a seguir ao nome, e o Lupi sentado ao meu lado direito.

Tirando o boneco do cão, e o primeiro nome, é igualzinho ao meu. A Sofia, que também foi para me acompanhar, não tem nenhum.

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