Monthly Archives: Julho 2017

D. Lina

No dia 17 de Março deste ano, enviei um e-mail ao Gabinete do Utente do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, a fazer um louvor à D. Lina. Não sei se lhe chegou alguma coisa. Já não vejo a D. Lina há muito tempo. De qualquer forma, a D. Lina merece que o louvor seja público. E é também uma espécie de homenagem às administrativas, vulgo as senhoras dos guichets. Também há homens nestes guichets, por exemplo um senhor que está na radiologia do Instituto Português de Oncologia de Coimbra, que é das pessoas mais simpáticas com quem já tive o prazer de interagir na vida. Assim, este post é dedicado a todos os trabalhadores de guichets desta vida, aos não azedos, claro. “Ainda se vê com cada besta…”

Ex.mos Srs.

Escrevo-lhes a expressar a minha deferência e para enviar um louvor à Sra. D. Lina, secretária clínica da neurorradiologia.

Diligentemente, a D. Lina, contacta os utentes a confirmar a sua presença nos exames, pelo menos, de imagem por ressonância magnética (IRM), o que, acredito, permite aproveitar melhor os preciosos momentos da máquina de IRM, uma vez que esta prática lhe permite agendar exames para outros pacientes, ou apressar casos urgentes.

Este exemplo de boa prática, digna de manuais de gestão de projeto por método heurístico, que é intuitivo para a D. Lina, acredito, não só permite um melhor aproveitamento de recursos escassos e importantes, mas, sabendo quais os diagnósticos que uma IRM pode ajudar a fazer, não é de todo exagerado dizer que esta atitude, da D. Lina, salva vidas.

Respeitosamente,

João de Sousa e Silva

—-

P.S.

Hoje voltei a estar no CHUC. Como sempre, toda a gente muito simpática e prestável. As senhoras do guichet das consultas de neurocirurgia são potenciais alvos para uma próxima carta de louvor.

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Mau Olhado

A impressora, o periférico que mais odeio, voltou a acicatar este sentimento. Desde uma velhíssima HP, linha 600 e qualquer coisa, que fazia com que todas as letras parecessem tipo Chiller, passando por outra HP, mais moderna, a última que tive com, apenas, a funcionalidade de imprimir, que ficou inutilizada pela minha inabilidade em montar cartuchos de tinta, não sem antes me ter derretido os nervos, até a minha primeira multifunções, HP também, que teve a sua reforma compulsiva há pouco dias, todas elas contribuíram para me inflamar os nervos e me fazer crescer tumores, ou seja,  a assanhar a neurofibromatose tipo 2.

A última a ser reformada, inaugurou a era do software da HP inacessível, pelo menos para mim. Acho justo dizer que a degradação da minha visão também teve a ver com o esforço praticamente sobre-humano, que fazia ao tentar usar aquela porcaria. Desisti, mas o mal estava feito! Esta última foi velhaca até à última hora. Gabei-a, foi o que foi. Andava eu a dizer bem dela, uma vez que era a Sofia que a usava, pôs-se a dar erro nos cartuchos, um de cada vez, inesperadamente, e se lhe déssemos atenção – .i.e. desencaixar e encaixar os cartuchos; ligá-la e desligá-la -, ela voltava a funcionar temporariamente.

Mas, acabou-se! Ao tentar imprimir uma coisa importante, voltou a queixar-se de um cartucho, o de cores. Teve azar! a coisa importante não era urgente e fez a birra num dia em que a Radio Popular estava a fazer o desconto do IVA!

Agora tenho uma HP multifunções com software inacessível e sem botões físicos. Só tem ecrã tátil, esta…

imagem do driver da impressora onde se vê o botão on/off e o ecrã tátil.

Jet Black @ Summer School

À chegada ao hotel, pedimos uma taça para dar água ao cão. Responderam que sim, que iam entregar ao quarto. Quando entrámos não demos com quarto nenhum! Era uma suite com uma sala enorme, um quarto espaçoso e uma casa de banho com dois lavatórios, cabine de duche e banheira com hidromassagem. Porreiro… Já o cão estava instalado no sofá – mediante autorização minha – bateram à porta e entregaram duas taças, para água e para ração, e uma caminha! Sim, uma caminha de cão. Fantástico! Voltámos a ter o sofá só para nós.

À medida que íamos travando conhecimento com outros participantes da escola, que rapidamente decoravam o nome do Lorde, mais tarde o da Sofia e, por fim, o meu, ficou claro quem era a estrela ali.

Durante as sessões, o Lupi arrumava-se a dormir, debaixo da mesa, que era redonda e tinha uma toalha comprida, até ao chão, o que fazia com que ele tivesse uma espécie de tenda. Volta e meia, algum colega do lado referia que o cão andava a cheirar-lhe os pés – este cão tem a parte do cérebro relativa a curiosidade diretamente ligada ao nariz -, lá me dava uma lambidela, ou à Sofia, e foi tudo. Passou a maior parte do tempo a dormir no seu abrigo – houve alturas que tive vontade de ir ter com ele.

A escola de verão sobre doenças raras foi mesmo interessante e, sobretudo, importante, mas, o cão marcou-a!

No terceiro dia da escola, de manhã, quando me preparava para sair, acabado de calçar, e pronto para pôr o arnês ao Lupi, ouvi um resfolegar, cada vez mais perto, sinto umas patas a apoiarem-se no sofá, onde eu estava sentado, e o resfolegar cada vez mais próximo, até quase me tocar na cara. Era o Lupi com a fita de pôr ao pescoço, que tem o cartão de identificação, na boca, felicíssimo a entregar-ma! O safado só me tinha visto a pegar nela uma vez, no dia anterior! Foi buscá-la à mesa de centro da nossa suite e veio entregar-ma. Ficámos atónitos. Pensámos que tinha sido um ato isolado. Qual quê! Fez o mesmo o resto dos dias.

Houve uma quantidade imensa de pessoas que pediram para tirar fotografias ao Sir Lupi. Mas, o mais incrível foram as pessoas que tinham medo de cães e quiseram, e conseguiram, vir ter com ele e fazer-lhe festas. No final, uma simpática médica albanesa, que tinha pavor de cães, veio-nos dizer que já tinha decidido, e até já tinha falado com o marido. Ia dar um cão aos filhos, um labrador! Tivemos que lhe explicar que este cão era muito bem-educado e treinado pelo Xico e pela Teresa, que, frequentemente, os labradores são passados e que era fundamental terem educação. Ficámos com pena dos filhos da senhora, mas evitámos uma desilusão e, eventualmente, um cão de ser mal tratado.

Foi fantástico ter visto uma pessoa, já de meia-idade, mas muito ativa e com ataxia, a evoluir durante a semana. Primeiro era um cão lindíssimo, depois passou a ser também interessante por ser de serviço, depois deslumbrou-se por saber que existem cães para dar assistência ao equilíbrio, entretanto descobriu que também se podia brincar com cães de assistência, e no final, já tinha avisado o marido que iam ter um! Só se queixou de uma coisa: fartou-se de mandar fotografias dela aos filhos, que não estavam presentes – tal como o marido -, de paisagens bonitas, e de ela ao sol, e só lhe responderam quando lhes mandou uma fotografia do Lupi. Aparentemente, se não fosse o cão, não tinha tido notícias dos filhos durante aqueles dias todos.

Ele foi, simplesmente, fantástico. Na suite, onde não tinha facilidade em deslocar-me, ele andava sempre junto a mim, e dava-me apoio, sempre que precisava de passar numa área onde não tinha onde me segurar. Mesmo assim, tive habilidade para desgraçar uma canela, quando tentei chegar para o lado, de uma forma pouco gentil, um movelzito, daqueles onde se pousam malas, onde tinha tropeçado na parte lateral, que me fez perder o equilíbrio, com o pé, pé esse que tentei usar para afastar o móvel. Infelizmente a zona do móvel onde tentei usar o pé não existia, e a minha canela encontrou o tampo onde se pousam as malas. Deixou de se notar há poucos dias.

No final, os organizadores da escola de verão, portanto, a equipa da Eurordis, veio ter connosco a dizer que o cão tinha sido incrível, que nem se tinha notado e que tinha sido o primeiro cão da escola de verão, portanto, de todas as edições até à data.

No regresso a casa, no A320R Florbela Espanca da TAP, que estava com os lugares todos reservados, por momentos, vimos a vida a complicar-se. Como ia ser com o Lupi? Por sorte, duas pessoas perderam o voo, e quando o simpático passageiro, que tinha o cartão de embarque com o lugar ocupado pelo Lupi, se estava a voluntariar para ir procurar outro lugar, uma assistente de bordo, prontamente apareceu, dizendo-lhe quais os lugares livres, e dizendo-lhe que ele podia escolher o que quisesse – as equipas da TAP são fabulosas! O senhor tinha dois lugares, um bastante atrás, e outro à frente, que ele escolheu, e que eu quis, com muita força, que já fosse numa classe superior – afinal o senhor tinha sido mesmo simpático. Durante praticamente todo o voo, veio o som de choro de bebé da zona para onde o simpático passageiro se tinha encaminhado.

Uns dias depois, recebemos um enorme envelope da EURORDIS.

Eu a segurar um certificado de presença na escola de verão da EURORDIS, onde no nome se lê Lupi de Sousa e Silva, com um boneco de um cão impresso a seguir ao nome, e o Lupi sentado ao meu lado direito.

Tirando o boneco do cão, e o primeiro nome, é igualzinho ao meu. A Sofia, que também foi para me acompanhar, não tem nenhum.

Jet Black

A viagem com o Lupi foi incrível! Começou com stresse, à entrada do aeroporto, uma vez que o telefone da MyWay não estava a funcionar – o telefone que está nas partidas e serve para pedir ajuda, no meu caso, dizer que já tinha chegado e precisava da assistência agendada. Claro que no meu caso não foi grave, uma vez que a minha querida Sofia andou à caça, com a ajuda dos seus lindos e preciosos olhos, de alguém da MyWay, a quem pudesse avisar que estávamos ali.

No check-in, as meninas do balcão ficaram doidas com o Lupi. Uma, em formação, perguntou se lhe podia fazer uma festa – procedimento corretíssimo -., e outras duas apressaram-se a aproveitar para alimentar o ego deste cão, que, acredito, não é pequeno. A custo, afastámo-nos para o controlo de segurança, onde, outra vez, os fiscais ficaram encantados com a criatura preta brilhante, resfolegante e beijoqueira.

Passados vários minutos de espera pelo embarque, minutos em que o Lupi foi recebendo festas e palavras ternas num tom de voz pouco melhor que insuportável de várias pessoas que iam passando, lá fomos para o embarque. Tipicamente – em todo o lado onde estive menos no aeroporto de Barcelona -, os passageiros com necessidades especiais e pessoas acompanhadas de crianças entram primeiro. Neste caso o embarque demorou mais uns 3 minutos, minutos os quais todas as pessoas envolvidas ficaram a adorar o lorde. Fomos convidados a despachar a bagagem de mão para o porão – coisa para normalmente custar uns €50 por mala -, para podermos viajar mais tranquilos. Agradecemos e recusámos – a oferta teria dado jeito no dia anterior, quando liguei para a TAP a questionar se havia alguma salvaguarda preparada para estes casos, onde a comida para o cão, é metade do peso permitido para a bagagem de cabine, e, após uma espera de vários minutos, simpaticamente, me informaram que, àquela altura, eram €60 para ter uma mala de porão. O senhor que tratou do embarque ainda nos informou que tinha, deliberadamente, deixado a cadeira do lado vaga, para viajarmos confortavelmente com o cão – fiquei contentíssimo! Adoro ter o tabuleiro da cadeira do lado vago, para descarregar o lixo enquanto como.

À entrada para o 320R Natália Correia, fomos calorosamente recebidos. O Lupi não, foi efusivamente afagado e mimado – se não fosse casado, tinha ficado cheio de inveja. Em particular, uma assistente de bordo, foi quem demonstrou mais afeto pelo Canídeo. Já depois de levantarmos voo, de cada vez que passava pela nossa fila, olhava e exclamava – Ai tão lindo… – Ai que sossegado… – Ai mas ele até vai a dormir…. Etc., etc. E o zénite foi depois de pedir para lhe tirar uma fotografia, tê-lo feito quando o colega tentava passar com o carro das sandes, durante a distribuição, e ela, a simpática assistente de bordo, queria tirar a fotografia. E tirou!

No final, como é normal, fomos os últimos a sair, para evitar confusão e aguardar pela assistência. Durante esse tempo, toda a tripulação se juntou em volta do Sir Lupi. Quem é que se pode gabar de receber água, servida num copo, pela mão do comandante?! Pois! O Lorde! E, como se não bastasse, fez um estardalhaço tal com a língua dentro do pequenino copo, que a Sofia se viu na necessidade de pedir desculpas. O comandante, fleumático, como um comandante deve ser, disse que “- não faz mal. O avião é uma coisa que desidrata muito.”

A primeira coisa que ouvimos à saída da manga foi “- Que perro tan precioso!!!!”.

Durante a escola de verão foi semelhante, ou pior/melhor.

 

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Viva a Ânimas!

O Lupi é, oficialmente, o meu cão de assistência. Mesmo a tempo da escola de verão, sobre doenças raras, ministrada pela Eurordis, onde estive. A Ânimas organizou a prova de certificação de dupla para mim e para o Lupi, de forma a podermos viajar juntos.

Foi fantástico! Adorei ter aulas com a professora Liliana, presidente da Ânimas, sobre bem-estar animal, cuidados animais, educação animal e etologia. Muito boa professora, com certeza, sem dúvida, fui capaz de acertar em tudo o que foi perguntado!

A prova prática foi pelo mesmo caminho. O Sebastião, educador, treinador e membro da direção da Ânimas, ministrou uma prova, onde eu, a Sofia e o Lupi, passámos por várias situações. Não tivemos nota máxima, porque eu, um bruto incorrigível, não agradeci sempre ao cão quando ele fazia bem o que lhe era pedido.

Na prova, ao passar por uma esplanada, um cão pôs-se a ladrar a nós. O Lupi nem piscou. – Que grande cão! -, Pensei, – E que grande prova que a Ânimas preparou. -, Pensei ainda. No final da prova descobri que era só um cão meio desembestado, que até rebocou a cadeira do dono, onde estava preso, com o dono lá sentado em cima, claro! Realmente, a educação canina escasseia.

Já somos uma dupla certificada, e viajámos juntos até à escola de verão!

Eu, com o cartão de dupla certificada na minha mão esquerda e o Lupi do meu lado direito

Obrigado Ânimas!