Late Bottled Vintage

Na semana passada dei por mim a falar publicamente por três vezes.

A primeira no âmbito de um trabalho de duas queridas estudantes – a Ana Catarina e a Luísa Carvalho –, que faziam um trabalho para a unidade curricular Comunicação Vídeo. Disseram-me que achavam a minha história muito interessante e que seria uma ótima adição ao trabalho.

Gosto sempre de ajudar estudantes. Também sou e também gosto quando me ajudam. Claro que aceitei!

Outro dia, dei por mim num palco de anfiteatro na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Instituto Politécnico de Leiria, fazendo parte de um painel, composto por pessoas com algum constrangimento físico e/ou sensorial, num evento chamado Todos Somos Especiais. Mais uma vez, o intuito foi dar um testemunho pessoal.

O convite foi feito pela minha amiga Cláudia Dias, uma estudante nessa escola e participante na organização do evento. Como disse, gosto de ajudar estudantes, junte-se o convite ter sido feito por uma amiga, numa escola do instituto que me formou e, claro, aceitei ir!

Eu, sentado num sofá cor-de-laranja, ao lado de uma grande cenoura em peluche, a falar ao microfone. 

Dias depois, estava no encontro anual da Associação Portuguesa de Neurofibromatose, a fazer parte de um painel, onde a minha função, foi, outra vez, falar sobre mim.

Eu, de pé, a falar atrás de uma mesa, entre a jornalista que moderou as apresentações e a presidente da CEDEMA, Maria Antónia.

Confesso que é um pouco estranho estar a falar de mim em público. Não que me sinta incomodado com o público ou a exposição – também já aconteceu atrapalhar-me muito, valeu-me uma garrafa de água e a minha querida Sofia. Confesso também que às vezes gosto de estar a falar – menos no registo de apresentação e mais em registo de entrevista. Mas continua sempre a fazer-me confusão porque raio quererão pessoas ouvir-me falar sobre mim! Compreendo que não sou um tipo banal, nem que tenho uma vida normal, mas mesmo assim… Certo é que as pessoas não se vão embora, a maior parte das vezes fazem bastantes perguntas e, cúmulo, algumas ficam para falar comigo no fim.

Às vezes, estou a falar e a pensar “- Porra –“, não é bem porra “- se fosse eu ali na plateia ia-me embora. Ainda por cima o gajo não vê, nem se ia importar! -”.

Lembro-me muitas vezes de uma cena da Montanha Mágica, de Thomas Mann, em que uma personagem, Mynheer Peeperkorn,insiste e fazer uma palestra, discurso, o que se lhe queira chamar, durante um passeio, junto a uma queda de água, onde forçou todos os colegas de excursão a sentar, tomar o lanche que tinham levado em quanto o ouviam. Não era possível ouvir a sua própria voz!

“E de repente se pôs a falar. Que homem estranho! Não era possível que ouvisse a própria voz, e muito menos que os outros entendessem uma sílaba sequer daquilo que lhes comunicava sem comunicá-lo.”

Há muita gente assim, gosta de se ouvir falar, sem se importar se a assistência quer, ou não, saber sobre o que estão a falar, quanto mais o que estão a dizer. Aparentemente, para Mynheer Peeperkorn, chega apenas mostrar-se, saber que alguém olhava para ele. Era óbvio que ninguém o ia ouvir. Era impossível! É uma exibição e abstração limites.

Confesso, que às vezes, apesar do que escrevi, sinto-me uma pontinha Peeperkorn, e tenho algum medo!

“E Peeperkorn ergueu o copo, descreveu com ele um semicírculo em direção aos seus convidados, e esvaziou-o completamente em dois ou três tragos, de maneira que o fundo se voltava para o céu.”

P.S.

Peeperkorn bebia Vinho do Porto.

P.S.2

Aceito os convites sempre com gosto! Já há muito que aprendi que as minhas métricas são isso mesmo, as minhas!

2 thoughts on “Late Bottled Vintage

  1. Claudia Dias

    Meu querido amigo João, agradeço teres aceite o meu convite e agradeço ainda mais seres a pessoa que és… De uma forma muito breve e meio trapalhona, como eu, vou tentar dizer te quais os meus motivos para te convidar a dar a conhecer um pouco da tua vida. Para mim, a tua vida é um grande exemplo de força, de persistência, de imensas dificuldades ultrapassadas e sobretudo de uma capacidade fenomenal de veres o lado positivo das coisas e apesar de tudo sempre de bom humor. Bem, posto isto, só para não te maçar muito, digo te que quando penso que tenho algum problema e que tenho uma vida horrível penso na tua e em muitas outras histórias de vida que conheço e penso que se passo por alguma dificuldade e me queixo percebo que na realidade não sei o que são dificuldades, e que quando me queixo como se fosse criança pequena (quase a fazer birra) vejo que nada melhor do que perceber, através da tua história de vida, que tudo pode ser enfrentado de sorriso no rosto tal como tu fazes. Beijinhos grandes

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