Na Zdravie #outravida

Há muitos anos, noutra vida, era eu alto, espadaúdo , louro e de olhos claros, fui de férias para um país que, na altura, era bastante exótico , ter com um amigo que é nativo de lá.

Ele tinha começado a namorar com a sua actual mulher há pouco tempo, e, aproveitando o facto de que os pais dela estavam fora fomos abancar lá para casa durante uns dias.

Uma bela moradia de dois andares para os padrões  de lá, tendo em conta que foi noutra era – eram, e são, gente da nota.

 

Fomos muitíssimo bem tratados, comida e bebida do melhor, não só em qualidade mas também em quantidade, especialmente a bebida. Aguardente caseira à descrição…

 

Depois de uma tarde bem passada em vários pubs, fomos jantar qualquer coisa em casa, com mais um amigo que se tinha juntado a nós durante a tarde – não me lembro do nome dele, mas era boa pessoa, generoso ao ponto de me oferecer a sua influência para obter um preço vantajoso junto de profissionais  não colectadas, caso eu estivesse interessado.

 

Durante o jantar, os quatro conversámos e rimos, enquanto consumíamos cerveja, vinho e, especialmente, aguardente. Apesar de todo o  meu arcaboiço, fiquei com um lapso  de memória…

 

Lembro-me de acordar no andar de cima, a dormir na cama da anfitriã, que estaria algures com o meu amigo, com uma terrível vontade de mij… ir à casa de banho e com a boca muito seca, com um gosto horrível, como se alguém me tivesse ido obrar para a boca enquanto dormia.

 

Saí do quarto e fui procurar a casa de banho.

 

Abri todas as portas que encontrei, umas 7 ou 8, e mesmo repetindo  alguns sítios, não encontrava a casa de banho… Num dos quartos onde tinha entrado, reparei que havia uma cama de casal e uma varanda – era nitidamente o quarto dos donos da casa. Passados 7 ou 27 minutos, cada vez mais aflito  e sem encontrar a casa de banho – até voltei a entrar no quarto onde estava acomodado – decidi que não ia esperar mais. Contra todos os meus princípios, numa das vezes que entrei no quarto dos pais da anfitriã, fui à varanda e fiz o que precisava de fazer para o quintal, lá em baixo… Alívio, mas só parcial.

 

Quando tentava voltar para o quarto onde estava acomodado, um pouco combalido, reparei que ele tinha desaparecido! Aquele lugar exótico era mágico. Como voltei a entrar várias vezes no quarto da varanda, bastante agastado com o humor das fadas traquinas lá do país onde eu estava e com uma necessidade incrível de voltar a dormir, decidi descansar um bocadinho no quarto dos donos da casa. Como pessoa séria e responsável que era, o meu código de honra impediu-me de me deitar na enorme cama de casal que havia lá no quarto – era a cama dos donos da casa, caramba! Em prejuízo do meu bem-estar e em favor da preservação dos meus valores e princípios, deitei-me num dos tapetes do quarto onde adormeci quase de imediato.

 

Passado não sei bem quanto tempo, acordei e achei que era boa ideia ver se as fadas já tinham posto o meu quarto no sítio. Voltei a abrir umas 14 ou 17 portas, mas só passado um número de minutos indeterminado  é que as entidades lá tiveram pena de mim e voltaram a fazê-lo aparecer. Tive uma noite santa!

 

P.S.

No andar de cima  existiam: o quarto dos donos da casa, um quarto que seria do irmão da anfitriã, uma divisão que não me recordo o que seria, o quarto onde eu estava alojado, a casa de banho – porta ao lado do quarto onde eu estava alojado – e a saída para as escadas que as fadas tiveram o bom-senso de fazer desaparecer durante a noite.

Pre-op

Voltei ao hospital e, como sempre, agendei transporte afirmando que a consulta era meia hora mais cedo do que o marcado – já sei o que é que a casa gasta, já cheguei atrasado até a ressonâncias magnéticas.

Tinha eu acabado de mictar, estava em acrobacias a fazer a arrecadagem pós-mictagem, e batem-me à porta. Pensei que era o dia errado para terem chegado a horas e, no meio da atrapalhação, lembrei-me que a janelinha da casa de banho fica mesmo ao lado da porta de entrada. Depois de quase ter mandado a lata da espuma da barba e a caixa dos cotonetes para dentro da sanita, perguntei através da janela entretanto aberta se era o taxista.  Reconheci-lhe a voz quando ele respondeu que sim, e pedi-lhe para me dar 5 minutos, que era só vestir o casaco e o cão e já ia. Acabei as arrumações, lavei as mãos, peguei no casaco, vesti o Lupi e lá fui.

Enquanto trancava a porta ouvi o Lupi furioso de contente a ir ter com o conhecido taxista, que o recebia com entusiasmo enquanto se dirigia a mim, para me rebocar para o táxi. O M. é um polaco gigante, que quase não parece humano de tão grande que é. Sempre que me vem buscar sinto que tenho um guindaste muito simpático a cuidar de mim.

No carro, depois de ter cancelado uma chamada que quase me matou de susto, uma vez que eu estava concentrado no meu próprio telemóvel, pediu-me, educadamente, para retornar a chamada, que era a sua mulher. Condescendi, claro! E ele ligou em alta voz…

Atendeu uma mulher de voz muito sedosa, que parecia ter acordado há pouco tempo, e ouviu-se o ruido de um isqueiro, daqueles mais antigos, com uma rodinha de metal…

Eu estive na Eslováquia a morar durante uns tempos, e sei coisas várias de eslovaco, tipo, sim, não, bom dia, boa noite, obrigado e até coisas muito complexas, tipo, onde é a casa de banho. Parte da linguagem falada tem muito de ritmo e acentuação, acresce que o polaco é bem parecido com o eslovaco. Fiquei então a ouvir a conversa com atenção…

Consegui entender, claramente, as palavras “mãe”, “bateria”, “depilação” e “Svetlana”.

Ora, ficou óbvio para mim que iam despachar o filho para casa da avó no fim-de-semana – o filho é um adolescente de que eu e o M. já falámos várias vezes –, a senhora estava frustrada porque a máquina de fazer a depilação estava com a bateria viciada, e como não queria estar peluda na festa de troca de casais que estavam a organizar para esse fim de semana, sobre a qual o M. estava muito entusiasmado por que vai  a Svetlana, estava a pedir ao marido para lhe arranjar uma bateria nova para a máquina de depilação.

Achei amoroso ela não querer uma máquina nova, mas apenas uma bateria.  Todos fossem conscienciosos  assim!

Eu, pus-me logo a pensar que o M. era uma boa pessoa para ter na lista de contactos.

Aproveitando uma conversa sobre livros que estávamos a ter, mencionei o livro O Estado Secreto, sobre a resistência polaca durante a II guerra mundial, dizendo-lhe que ele o devia ler. Não me lembrava do nome do autor – é o Jan Karski –, e quando ele me disse que até gostava de o ler, solicitamente ofereci-me para lhe enviar uma SMS com o nome do autor.

Durante a viagem, ainda teve tempo de olhar para mim e exclamar “tens o cabelo verde!!”.. Expliquei-lhe que estava assim desde a primeira vez que ele me tinha transportado. Diz que achava que era preto…

Para eu não ter que andar muito, estacionou o táxi a trancar 2 ou 3 carros, e lá fomos procurar o sítio da consulta, com o M. nervosíssimo, com medo de apanhar uma multa.

Depois de me deixar, fui atendido por uma simpatiquíssima senhora, que se lembrava de mim – devia ser por causa do Lupi. No meio da consulta, depois de termos sido interrompidos por outra senhora que bateu à porta para ir fazer uma festa ao Lupi, quando tirei os óculos de sol para voltar a colocar os aparelhos auditivos que tinha tirado para lhe demonstrar que ouvia bastante bem, tratando-se mais de uma questão de conforto e gestão de esforço exclamou: “ohh… tens o cabelo verde… pensava que era o reflexo dos óculos de sol!”. Explicando-me que eu era muito saudável, dispensou o ECG e passou-me para as senhoras que me iam tirar sangue.

No meio tempo, entabulei conversa com uma senhora que se meteu com o Lupi, ou duas, ou três, até, efectivamente, uma das senhoras das análises sanguíneas me ir buscar. Nem notei a picadela, uma vez que estávamos a falar sobre cães. Durante esse tempo o Lupi desfrutava das festas de outra simpática menina que estava na sala.

Depois das análises, veio um porter levar-me para a sala de espera de transportes, numa cadeira de rodas, para ser mais fácil a caminhada. Para facilitar, o porter levou a trela do Lupi. Durante o trajecto, que afinal até era pequeno, 3 meninas meteram-se com o porter por causa do Lupi.

Ao chegar à sala de espera:

(senhora) – Que cão tão bonito!

(eu) – Sim, é. Obrigado.

(senhora) – qual é a tua data de nascimento?

(eu) – Janeiro, 84.

(senhora) – És diabético?

(eu) – não.

(senhora) – vais para onde?

(eu a pensar( tu queres ver que a mulher ainda me manda para uma unidade de reabilitação qualquer…

/(eu) – para casa!!

(senhora) – Oh desculpa… localidade!

Fiquei a pensar que, de facto, pode ser perigoso responder com uma linha de pensamento na cabeça, uma vez que pode ser desfasada da do interlocutor.

Mais conversa com senhoras que se aproximavam do Lupi, sempre muito simpáticas, a elogiar a beleza e boa disposição dele. É absolutamente incrível a quantidade de gente que se acerca por causa do meu amigo, sem se importar em que ele as lamba, nem as chicoteie com a cauda, tudo por força da sua alegria inesgotável.

A senhora que me fez as perguntas aproximou-se de nós, e perguntou-me: queres chocolate?

Fiquei a pensar que o Lupi andava a meter umas cunhas muito boas, sem querer, mas depois lembrei-me da pergunta sobre os diabetes. Fiquei sem saber se foi influência do Lupi, se já tinha pensado em fazer a oferta e por isso falou nos diabetes, ambas as coisas, ou outra coisa qualquer. Sobretudo fiquei a pensar que pode ser mesmo má ideia achar que se sabe o que a outra pessoa está a pensar.

Aceitei o chocolate, a senhora deu-me dois, eram pequeninos e muito bons.

A minha mão a segurar as embalagens de chocolate vazias

O taxista que me foi buscar foi de novo o M. Não lhe perguntei sobre a multa, para não perder um pretexto para o contactar… Vou agora dizer-lhe o nome do autor, o Jan Karski.

Tea room

As aulas de braille estão a ser uma andança  que varia entre o radical e a tortura para me manter acordado.

Depois de ter tido uma experiência de quase morte com os taxistas que me transportaram para a segunda aula de braille a que fui  – os meus vizinhos andam indignados com a maneira com que os taxistas me tratam e eu sem se quer saber que andava a ser observado -, A fim de aumentar as chances de sobreviver às jornadas das aulas de braille, decidi experimentar um serviço muito giro, onde vem um miniautocarro  equipado com rampas, elevadores , espaço e  mais não sei o quê que não vi, para levar pessoas em cadeira de rodas e  pessoas com outras deficiências para um sítio em particular, desde  nossas casas, ou desde onde nos aprouver  – haja vaga.

Um motorista muito educado e  bem treinado bateu-me à  porta à  hora marcada e  com grande mestria levou-me até ao miniautocarro. Depois de eu me ter tentado sentar  no lugar dele, o  motorista apercebeu-se, e bem, que não seria o melhor ser eu a levar o miniautocarro, pelo que me ajudou  a sentar noutro lado. Entretanto, descobri que uma passageira, que já se encontrava acomodada, estava muito alegremente a ser espancada pela cauda do Lupi, freneticamente abanada pela força da sua felicidade inesgotável – antes de descobrir o que se estava a passar, ocorreu-me que a passageira pudesse ter algum problema de cognição, dado que não estava a ver porque raio se estaria a rir descontroladamente.

Ao chegar ao local das aulas de braille, uma vez mais, o  motorista, com todo o  brio e  educação, levou-me até ao edifício e passou-me para outra pessoa, enquanto o Lupi andava ao meu lado, com a sua cauda furiosa de alegria, a segurar a sua própria trela com a boca e a fazer rir toda a gente.

Já na sala da aula de braille, onde estamos vários cegos sentados em volta de uma mesa, tirei discretamente o meu iPhone com  uns auriculares, previamente carregado de podcasts – eu já sabia como funcionava a aula. Depois de reparar que seria impossível ouvir o  que quer que fosse no iPhone, desisti, resignei-me e preparei-me para atingir o meu objetivo para essa aula – um papel com umas frases escritas que eu soubesse quais eram para treinar o tacto, simples, não é?

A aula de braille lá ia avançando, com todos os confortos inerentes a uma casa de chá. Os estudantes levam bolinhos, biscoitos e competem pela raridade dos quitutes que generosamente oferecem uns aos outros. O centro onde decorrem as aulas oferece chá e café, para desgosto de um senhor mais velho que afirmou preferir whisky.

Enquanto pensamentos autodestrutivos e homicidas me passavam pela cabeça, tentei explicar à professora que não era boa ideia dar-me palavras aleatórias e algumas que nem tinham significado, uma vez que o meu objectivo era treinar o tacto, e, portanto, seria vantajoso eu saber o que raio estava a tentar ler. Passada quase uma hora e meia, onde ouvi falar de achaques de saúde, em como uma senhora viu o seu telemóvel ser destruído pelas mãos e baba da sua neta com 18 meses, biscoitos italianos e outras coisas que o meu cérebro não reteve provavelmente por estar ocupado a tentar dissipar um iminente ataque de fúria, lá consegui duas frases que sei o que querem dizer, para trazer para casa.

Tive o prazer de rever uma antiga psicóloga que me aturou na altura em que tinha uma tangerina a amolegar-me a mioleirinha, que fazia com que eu não andasse muito simpático, e que me deu dois dedos de simpática prosa até um outro simpático, educadíssimo e muito competente motorista me ir buscar para me trazer para casa.

Foi uma experiência quase extra sensorial vir num miniautocarro carregadinho de pessoas com deficiências. O meu coração encheu-se e os olhos marejaram com a ternura com que o motorista tratou os passageiros e vice-versa – nitidamente já se conheciam. O motorista deixou-me em casa, depois de eu lhe ter dito que não lhe tirava o chapéu só porque não o trazia comigo. Mesmo perante a minha insistência de que já estava bem, só se afastou de mim depois de me ter visto a abrir a porta!

O Lupi e eu a segurar numa folha com o alfabeto em Braille.

Se tudo correr bem, não volto às aulas de braille. Pela saúde restante dos outros alunos, da minha sanidade mental e, eventualmente, a manutenção do cadastro limpo.

Estou a Aprender Braille

Estou a aprender Braille. Quero voltar a programar de uma forma confortável e, como usava a visão, decidi aprender Braille. Após alguma insistência consegui um alfabeto Braille, onde as letras normais têm o correspondente em Braille. A Sofia passou com uma caneta nas letras normais, carregando,  de forma que as letras normais também ficassem perceptíveis com o tacto. Ou seja, sozinho consigo estudar o alfabeto e os números de 0 a 9.

 

Fiz progressos e aprendi o alfabeto, estando em ânsias  para tentar ler coisas, para além de A, B, C, etc.

 

Braille: http://www.bengalalegal.com/sbraille

 

A vizinhança tem o hábito de oferecer postais de Natal, metendo-os na ranhura do correio, e o Lupi vai-me buscar o correio, assim que ele entra porta adentro. Hoje de manhã, estava a fazer coisas no computador, e alguém meteu um envelope na ranhura da porta. O Lupi veio pronta e alegremente entregar-mo – outro dia trouxe-me um caixote tão grande e pesado que nem sei como não partiu um dente!

 

Era um postal de Natal de um vizinho.

 

Achei um piadão, porque  o envelope tinha Braille! Infelizmente a minha sensibilidade ainda não está apurada o suficiente, pelo que tudo o que seja Braille não impresso no papel mais adequado, custa-me a percepcionar. Liguei para um voluntário para me ajudar a ver o cartão – há uma aplicação móvel para ligar para voluntários para ajudar a ver:  https://www.bemyeyes.com/

 

Quando abri o envelope, reparei que o próprio cartão também tinha Braille. O voluntário, que era uma senhora brasileira que mora em Londres, segundo me contou, e ficou louca de contente por ajudar. Descreveu-me um cãozinho castanho e leu a mensagem que lá estava dentro. Achei muito fofo a preocupação dos vizinhos em arranjar uma coisa em Braille, vizinhos que eu nem sei quem são – é normal as pessoas acharem que eu sei Braille.

 

Durante o dia, volta-e-meia, peguei no cartão, para tentar decifrar o que lá estava escrito, sem sucesso. O papel é muito Suave. Percebi que o primeiro caracter era o indicador de números, pontos 3, 4, 5 e 6 – uma célula Braille tem 6 pontos, cada um com um número que o identifica. Foi tudo o que consegui entender, das vezes todas que peguei no envelope.

 

À hora de almoço, contei à Sofia o que os vizinhos tinham feito. É reconfortante saber que há gente capaz destes mimos aqui, perto de nós.

 

No final do dia, quando a Sofia chegou casa, estava naturalmente entusiasmado para saber o que estava escrito em Braille, tanto no envelope como no cartão.

 

A Sofia rapidamente me descodificou o “Braille”:

 

Envelope: letras normais mas em relevo a dizer Marks & Spencer;

Cartão: Eram floquinhos de neve feitos com brilhantes…

 

Vou continuar a praticar.

Eu a segurar o cartão e o envelopeFoto de pormenor onde se vê a minha mão a segurar o cartão e o envelope.

O que é que se segue?

Apesar da NF2 estou como estou e onde estou graças a duas coisas que considero fundamentais, o meu “mau feitio” e um enorme conjunto de pessoas incríveis. Muitas delas vão ler isto e é, sobretudo, por causa de saber disso que escrevo este texto.

 

Por me terem ajudado tanto e por acreditar que vão ficar felizes em saber, é com agrado que vou, por fim, defender a minha tese de doutoramento.

 

Deu trabalho e principalmente muito stresse.  5 cirurgias, uma testa nova e várias mudanças grandes de vida depois, a apresentação vai  acontecer dia 9 de Janeiro na UTAD.

 

Obrigado a todos… mas mais à Sofia!

Homem Mais Feliz do Mundo

Nota prévia: Não vejo e o meu olfacto já teve melhores dias.

 

 

Sofia – Tenho aqui uma certa coisa… Senta-te aqui.

Eu – Eh lá! Deixa cá ver…

Uma caixa metida no colo

Sofia – Já é dia 1… (de Dezembro)

Eu – Um Advent Calendar!

Sofia – Oh, adivinhaste logo… Abre lá… O dia um é este…

Mão na janela certa

Eu – Caramba… O chocolate vem embalado a vácuo e tudo! Altíssima qualidade…

Chocolate aberto

Eu – Vá, toma lá um bocadinho. és a primeira.

Sofia – Não, és tu…

Dentada  no chocolate

Eu – Ena, que textura incrível… percebe-se porque é que tem que estar no vácuo…

Sofia – …

Eu – e tem umas notas de sal… está muito na moda e ainda bem, é muito bom!

Sofia – ffdfhghhmff…

Eu – …. É queijo!!!!!!

Rir que nem tontinhos

Homem feliz!

 

Eu a segurar o advent calendar, com metade já comido.

Domingueiros

Ontem fui às compras com a Sofia. Não gosto de ir às compras, mas como eram coisas para mim, lá fui eu até ao centro comercial. Resisti bastante bem às 3 horas em que estive exposto ao ambiente hostil de centro comercial, a que normalmente reajo com suores, irritação, quebras de tensão e, às vezes, revoluções intestinais.

Quando terminámos, decidimos ir dar um passeio e, uma vez que era domingo, resolvemos ir a um sítio novo, um pouco distante de casa.

Passada quase uma hora de caminho, estacionámos junto de um sítio muito agradável, com uns caminhos ladeados com árvores, de volta de um grande e bonito reservatório de água – disse a Sofia –, onde havia algumas pessoas a caminhar e passear cães.

Um grande repuxo ao lado do reservatório com campos verdejantes à volta e um detalhe de flores amarelas.

Sou um bocado reticente em explorações, uma vez que facilmente chego a zonas onde não consigo caminhar. Mas parecia-me tudo bem ali. Lá fomos.

O Lupi foi travando amizade com alguns outros amigos de quatro patas, feliz da vida dele.

Eu e a Sofia com um fundo de arbustos lilases e erva verde, onde o meu cabelo (pintado de verde) se confunde com a vegetação.

Passados uns 20 minutos de caminho, e depois de termos já passado algumas zonas em que não me tinha sentido confortável, perguntámos a uma senhora que parou junto de nós, por causa dos cães, onde é que aquele caminho nos ia levar. A senhora, simpaticamente, explicou que íamos ver uma ponte, e depois havia uma bifurcação, que para a esquerda dava-se o resto da volta ao reservatório, e para a direita era para continuar a dar uma volta maior, que abarcava outro reservatório. Perante aquela informação, decidimos seguir em frente, em vez de voltar para trás.

Fico sempre desconfortável com informações deste género, porque nunca sei se é demasiado longe para mim, ou não. Acrescia que o caminho podia ficar mau, como em algumas zonas por onde já tínhamos passado.

Lá seguimos. Achámos a ponte – era longe e tinha umas zonas lixadas! – e cortámos para a esquerda, pelo caminho mais curto.

Eu e a Sofia na ponte entre os dois reservatórios. Eu a fazer cara de tan-tan e a Sofia a rir comó caraças.

Dava para ver que já estávamos a mais de meio do caminho, portanto, voltar para trás aparentava ser estúpido.

Havia algumas pedras no caminho, seguidas de irregularidades, depois rampas, lama, raízes de árvores, portões, escadas, caminhos muito estreitos, silvas e vegetação vária. Eu já ia aos car… caragos e a Sofia a motivar-me com a cervejinha que ia beber a seguir.

A uns dois minutos de eu lhe pedir para me levar às cavalitas, a Sofia viu a saída/fim, já na zona onde estava o carro. A Sofia deu-me a motivação final, falando na cervejinha, e eu pensei que nem tinha sido assim tão mal, que o problema era a incerteza de saber se faltava muito ou pouco, e que da próxima ia ser muito mais confortável para mim. Não tive tempo de abrir a boca para lhe dizer isto – ela vai ficar a saber quando ler este texto.

Sofia – ahh! O parque de estacionamento tem o portão fechado a cadeado e já só está lá o nosso carro…

Eram 18h, eu tive o cuidado de ver.

Eu – liga para as emergências e pede para falar com a polícia.

Após alguns minutos de pesquisa na Net – o edifício onde o carro estava estacionado era da companhia das águas, pelo que havia a esperança de sacar um número onde alguém atendesse e fosse ali abrir o portão num tirinho, teoria que não se verificou – ligou para as emergências. Depois de terem passado a chamada algumas vezes e algum esforço a explicar onde estávamos, a polícia deu-lhe o número para casos não urgentes – pudera, não era o carro deles, nem eram eles que estavam mortos de cansaço , nem com sede, nem à chuva, nem sem sítio se quer para se sentarem!

Depois de termos conseguido falar para o departamento certo da polícia, e a Sofia ter lutado para que entendessem onde estávamos, foram extremamente simpáticos, recolheram os dados da Sofia, disseram que iam arranjar um contacto e voltariam a ligar. Lá ficámos nós à espera… Nem sei quanto tempo.

Fomos tentando escapar da chuva, graças a uma árvore que lá estava, e gerindo energia, que já estava na reserva mesmo antes de terminar o percurso à volta do reservatório.

A certa altura, um casal que tinha chegado entretanto e regressava ao carro chamou a nossa atenção. A Sofia “gritou” a perguntar se por acaso conheciam alguém que trabalhasse naquele edifício, a senhora aproximou-se, disse que não, explicou que era uma espécie de centro interpretativo sobre o meio ambiente e lamentou a nossa situação. Perguntei se nos podia indicar um sítio onde pudéssemos alugar um quarto para aquela noite, caso fosse necessário. Respondeu que não, mas que podia ver no Google. Lembrei os presentes que devíamos poupar as baterias dos nossos telemóveis e aceitámos a ajuda da simpática senhora, que com sintomas de constipação, precisou de ir ao carro buscar os óculos. Regressou com um senhor, e enquanto o senhor fazia festas ao Lupi e lhe dizia que ele era lindíssimo, ia-se assoando e arranjou-nos o número de telefone dum pub, ali mais pertinho, a 5 minutos de caminho, onde também alugavam quartos. O telefone da Sofia começou a tocar e a simpática senhora afastou-se, despedindo-se e desejando-nos boa sorte.

Era da polícia. Parece que estavam a tratar do caso, que iam arranjar um contacto. Estavam a tranquilizar-nos.

Nesta altura lembrámo-nos de ligar para a linha de incidentes urgentes da companhia das águas, só que em vez de reportar um cano roto, reportaríamos a situação do nosso carro, que estava trancado num edifício. E com que cadeado! Enorme, com rodinhas para pôr o código, a agarrar uma corrente grossíssima.

Eu e a Sofia à frente do portão trancado com o cadeado e a corrente e o carro ao fundo dentro to parque.

A senhora que atendeu, a Georgia, foi muito simpática, mas disse que não conseguia falar com ninguém dali, do edifício. Pediu os dados à Sofia e disse que ligaria daí a um bocado, depois de falar com a chefe. Avisou que alguém nos ia abrir o portão! VIVA!

A polícia voltou a ligar, dizendo que íamos ser contactados pelos bombeiros. A Sofia avisou que também tínhamos avisado a companhia das águas, e que a companhia das águas iria resolver o problema, e para a polícia o assunto ficou arrumado!

Pensámos então em ir para o tal pub sentarmo-nos até alguém telefonar. Estava a ficar bastante frio e eu estava já muito cansado. 5 minutos a pé não podia ser longe.

Lá fomos, passeio estreito e vegetação a invadi-lo vinda do quintal das casas. Por uma vez, só não fiquei cego porque já sou – e também estava com os óculos postos.

O sítio era meio ermo e eu não estava a gostar. A Sofia confirmou o caminho. Continuavam a faltar 5 minutos a pé… Disse-lhe que preferia voltar para trás, que não queria que ela fizesse o caminho de volta sozinha para ir buscar o carro.

Nisto a Sofia avistou uma carrinha da companhia das águas ali estacionada. Estava a tentar convencer a Sofia a ir bater às portas até descobrir quem andava com aquela carrinha, para pedir ajuda. Nisto ouvimos alguém a sair de um carro, e ao mesmo tempo que íamos abordar a pessoa, o telefone tocou!

Era da companhia das águas, a dizer que ia gente a caminho. Agradecemos muito e avisámos que estávamos a 5 minutos do carro, para a pessoa esperar e não se ir embora!

Quando chegámos ao portão, ainda não estava lá ninguém. Nisto recebemos uma SMS da companhia das águas a informar que a pessoa que nos ia abrir o portão demoraria 1 hora e 15 minutos a chegar…

Fomo-nos mexendo e tentando safar dos chuviscos, que tinham amainado. Eu só pensava na cervejinha, que seria melhor jantar e tudo.

Mudámos de sítio algumas vezes para passar o tempo e desentorpecer as pernas até que chegasse o funcionário da companhia das águas. Já estávamos de pé há muitas horas e, pelo menos para mim, estar parado de pé é muito custoso.

Passada a hora e 15 nada… pedi à Sofia para voltar a ligar, coisa que fez, sem, no entanto, obtermos nova informação. Quem atendeu explicou que toda a gente do escritório já sabia da situação e que alguém nos ia abrir o portão, mas que não sabia exatamente quando.

Comecei a entrar em stresse, bastante cansado mesmo. Liguei eu para a companhia das águas, falei com um senhor que, mais uma vez, me disse que toda a gente sabia da situação, que não sabia quando ia ser, que não me podia dar um número de telefone dos engenheiros que lá iriam, que deviam estar a fazer outro serviço, que não conseguia dar uma estimativa de tempo. Expliquei que era um tipo todo tortinho, estava muito cansado, sem sítio para me sentar e a ficar com muito frio. Lamentou e desligou educadamente.

Passada uma meia hora, acho eu, disse à Sofia para ligar para um amigo para nos ir buscar, e para saltar o muro – ela já tinha dito que o podia fazer – para ir buscar a chave de casa, que estava dentro do carro, que íamos telefonar para a companhia das águas, não fosse disparar algum alarme, e ainda seríamos acusados de invasão de propriedade privada. Estava-me mesmo a passar, quando a Sofia disse – Vem aí um carro…

Era mesmo um senhor da companhia das águas, bastante chateado por ter que sair de casa, de junto da família, a um domingo, dizendo que não devíamos ter estacionado ali – obrigadinho!

Demos-lhe toda a razão, oferecemos uma bebida que ele recusou. Que preferia voltar para a família, ainda nos descansou dizendo que pelo menos tinha sido pago para ir ali.

Arrastei-me até ao carro, muito cambaleante, e só não dei graças a Deus quando me sentei no carro porque não sou crente.

Já passava das 22 horas quando saímos dali.

P.S.

O pub não tinha estacionamento.